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	<title>Gosto Se Discute &#187; João de Deus</title>
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		<title>Os cineastas e seus alter egos</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Sep 2009 05:30:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Milena Azevedo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Notas]]></category>
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		<description><![CDATA[Ficar sempre atrás das câmeras deve frustrar os cineastas, por isso alguns deles foram levados a criar personagens, espelhando-se em si mesmos. Personagens esses que terminaram estrelando diversas películas, caracterizando-se pela interpretação de um mesmo ator. Antoine Doinel, alter ego de François Truffaut, é um dos mais conhecidos; sempre interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud, desde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify; ">Ficar sempre atrás das câmeras deve frustrar os cineastas, por isso alguns deles foram levados a criar personagens, espelhando-se em si mesmos. Personagens esses que terminaram estrelando diversas películas, caracterizando-se pela interpretação de um mesmo ator.</p>
<p style="text-align: justify; "><img class="alignright size-full wp-image-161" title="francois_truffaut" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/francois_truffaut.jpg" alt="francois_truffaut" width="131" height="119" /><img class="alignleft size-full wp-image-162" title="Antoine_Doinel" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/Antoine_Doinel1.jpg" alt="Antoine_Doinel" width="93" height="102" />Antoine Doinel, alter ego de François Truffaut, é um dos mais conhecidos; sempre interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud, desde <em>Os incompreendidos</em> (Les Quatre Cents Coups, 1959), passando pelo episódio <em>Antoine e Colette</em>, de <em>O amor aos vinte anos</em> (L´amour à vingt ans, 1962) e a trilogia <em>Beijos Roubados</em> (Stolen Kisses, 1968), <em>Domicílio Conjugal</em> (Bed &amp; Board, 1970) e <em>O amor em fuga</em> (Love on the Run, 1979).</p>
<p style="text-align: justify; "><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-163" title="RecollectionsOfTheYellowHouse" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/RecollectionsOfTheYellowHouse-150x150.jpg" alt="RecollectionsOfTheYellowHouse" width="115" height="115" />Há também o João de Deus, alter ego do cineasta português João César Monteiro, interpretado pelo próprio, em filmes como <em>Recordações da Casa Amarela</em> (1989), <em>As comédias de Deus</em> (1995) e <em>As bodas de Deus</em> (1999).</p>
<p style="text-align: justify; "><img class="alignright size-thumbnail wp-image-165" title="ze_do_caixao" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/ze_do_caixao1-150x150.jpg" alt="ze_do_caixao" width="105" height="105" /></p>
<p style="text-align: justify; ">O Zé do Caixão, do José Mojica Marins, personagem que o diretor e ator concebeu em 1963, para o filme <em>À meia-noite levarei a sua alma</em>, o acompanha até hoje e é um sucesso nos Estados Unidos, onde foi rebatizado como Coffin Joe.</p>
<p style="text-align: justify; "><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-169" title="Peter Greenaway" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/Peter-Greenaway-150x150.jpg" alt="Peter Greenaway" width="120" height="120" />Mais recentemente o cineasta Peter Greenaway, com seu audacioso projeto multimídia <em>As maletas de Tulse Luper </em>(The Tulse Luper Suitcases), vê-se metaforicamente na pele do personagem Tulse Henry Purcell Luper, escritor e projetista, que se tornou um “prisioneiro profissional”, reconstruindo a história de sua vida a partir da evidência de 92 maletas, encontradas no mundo todo entre 1928 e 1989, segundo o crítico de cinema Leon Cakoff. Concebido para ser apresentado através de uma trilogia, uma série de TV, 92 dvds e livros, além de cd-roms, games e websites. Tulse Luper está sendo interpretado pelo ator JJ Feild, que já filmou <em>The Moad Story</em> (2003), <em>Vaux to the Sea</em> (2004) e <em>From Sark to the Finish</em> (2004).</p>
<p style="text-align: center; "><img class="aligncenter size-full wp-image-166" title="Tulse Luper" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/Tulse-Luper.jpg" alt="Tulse Luper" width="416" height="232" /></p>
<p style="text-align: justify; ">Mas, talvez, o caso mais peculiar de alter egos no cinema seja o personagem Adam Miauczynski, criação do diretor polonês Marek Koterski, justamente pela singularidade do seu cinema.</p>
<p style="text-align: justify; "><img class="alignleft size-full wp-image-167" title="Koterski" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/Koterski.jpg" alt="Koterski" width="116" height="154" />Koterski é dramaturgo e seus filmes são deveras teatrais (ele costuma escrever o roteiro da peça e só depois o adapta para o cinema, nunca filmando nada que não tenha ele mesmo escrito). No início de sua carreira, produziu diversos curtas e médias-metragens, como diretor assistente, bem como uma porção de documentários no Wytwórnia Filmów Oswiatowych (Educational Film Studio), na cidade de Lódz. Só depois de quarentão é que fez o seu debut como “diretor principal” com <em>A casa dos loucos</em> (Dom wariatów, 1985). E foi nesse filme que, pela primeira vez, entramos em contato com o personagem Adam Miauczynski, interpretado pelo ator Marek Kondrat, que repetiu o papel em <em>Day of the Wacko</em> (Dzien swira, 2002) e <em>Somos todos Chrystusami</em> (Wszyscy jesteśmy Chrystusami, 2006), mas o personagem foi interpretado também por Cezary Pazura, em dois filmes: <em>Nothing Funny</em> (Nic smiesznego, 1995) e  <em>Aljawju</em> (1999).</p>
<p style="text-align: justify; ">Adam Miauczynski é divorciado, fuma compulsivamente, tem insônia, torna-se alcoólatra e está sempre imerso em suas neuroses, medos e frustrações. Ele é o protótipo do homem sonhador e ambicioso, mas que não conseguiu dar um rumo para a própria vida e acabou se tornando um poço de nervos.</p>
<p style="text-align: justify; ">Conta Marek Kondrat que Koterski lhe disse para não só interpretar Adam, mas sim ser o personagem, vivê-lo integralmente. O roteiro de <em>A casa dos loucos</em> foi escrito em três semanas e Koterski falou que ele foi o resultado de “traumas acumulados”. Nesse filme, ele criou toda uma atmosfera autobiográfica, inclusive o Adam criança foi interpretado pelo seu filho.</p>
<p style="text-align: justify; "><img class="aligncenter size-full wp-image-168" title="Marek Kondrat" src="http://www.gostosediscute.com.br/wp-content/uploads/Marek-Kondrat.jpg" alt="Marek Kondrat" width="420" height="279" /></p>
<p style="text-align: justify; ">Em <em>A casa dos loucos</em>, Adam (então com 33 anos) vai fazer uma visita a sua família, passando uma noite na casa de seus pais, e lá encontra o irmão Gigi (aparentemente o mais lúcido da família), a cunhada Wanda e a sobrinha Aska. A maior parte da ação desenrola-se na sala de jantar, onde completamente sem jeito Adam tenta se livrar do chá preparado por sua mãe, toca piano, lê o jornal, janta, fuma. Ele só consegue estabelecer diálogos superficiais com o seu pai e com a sua mãe, pois ambos ficam pra lá e pra cá, em ações ritualísticas (o pai volta e meia bate as meias no fogão, a mãe fica tentando abrir a porta, que está sempre emperrada). Todo esse comportamento excêntrico faz com que Wanda pire e tente o suicídio, e quem a socorre é justamente um atormentado e insone Adam.</p>
<p style="text-align: justify; ">No último filme em que o personagem Adam Miauczynski aparece, <em>Somos todos Chrystusami</em> (2006), ele já está com 66 anos e procura se aproximar do filho (interpretado pelo filho de Koterski, Michal), o qual é usuário de drogas, e assim ter uma desculpa para se manter sóbrio, promovendo a redenção de ambos.</p>
<p style="text-align: justify; ">Apesar de se expor em demasia, Koterski costuma mostrar Adam por um ângulo tragicômico, chegando a rir de si mesmo, como acontece em Nothing Funny, embora admita que muitas das situações vividas por Adam foram fruto de sua imaginação, e que vê no seu heroi um meio de expressar seus medos, suas dores e seus embaraços.</p>
<p style="text-align: justify; ">Que os cineastas continuem se fazendo presentes à frente das câmeras, através de personagens intrigantes, sedutores, diabólicos e neuróticos, numa autêntica emulação da vida. Quando a gente se encara de frente, se enxerga por inteiro, procura corrigir as falhas e superar temores. Assim, atrás das câmeras teremos profissionais cada vez melhores (ou mais loucos).</p>
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