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Luta de classes infantilista

Com o advento do catolicismo, as crianças passaram a ser vistas como pequenos seres de pureza singular, verdadeiros anjinhos sem asas, após receberem as águas purificadoras do batismo. No entanto, quem lida com crianças durante um certo tempo sabe que elas são capazes de atos deveras crueis e ofensivos, ora fruto da imitação dos familiares, ora como uma forma de chamar atenção ou já uma demonstração de uma característica de sua personalidade.

Eu sou o senhor do castelo (Je suis le seigneur du château, 1989), filme francês dirigido por Régis Wargnier (Indochina), que adaptou o romance setentista I´m the king of the castle, da escritora britânica Susan Hill, mostra que uma criança mimada e rica é capaz de humilhar uma criança pobre simplesmente pelo prazer de pertencer a uma “classe superior”. Logo no início do filme, ao ler um poema para a sua mãe doente, Thomas (Régis Arpin) já diz a que veio: “não quero viver, quero reinar”. Com o falecimento da mãe, o menino se enclausura majestosamente em seu quarto e não fica nada contente em saber que o pai, Monsieur Bréaud (Jean Rochefort), planeja contratar uma governanta, Madame Vernet (Dominique Blanc), cujo filho Charles (David Behar) tem a mesma idade que ele.

Thomas trata Charles como um invasor, ao mesmo tempo em que aceita os cuidados quase maternos de Madame Vernet (embora externamente lute contra os mesmos em memória a sua mãe). Para Thomas, Charles vem se apossar de tudo o que ele quer obter: amor do pai e carinho e atenção de Madame Vernet. Como guardião de seu lar, o suntuoso castelo, Thomas deixa bem claro para Charles a sua condição de “empregado”, de alguém que está ali porque o próprio pai não pode lhe dar abrigo e conforto, afirmando diversas vezes que ele lhe deve obediência, além de mentir e pregar peças de mau gosto para amedrontar e afugentar o outro.

Ao perceber que aos poucos Madame Vernet e Charles estão conquistando o apreço de seu pai e que em breve farão parte da família, Thomas fica mais enraivecido e usa Charles para humilhar o casal, promovendo uma dupla vingança.

Mas o algoz expia seus atos malcriados ao descobrir, tarde demais, que Charles não era o inimigo, que ele não queria usurpar nada nem dentro e nem nos arredores do castelo, numa cena tocante, homenagem de Régis Wargnier ao filme Os Incompreendidos, de François Truffaut.

Mais recentemente tivemos outro filme ícone da crueldade infantil, Cavalo de Duas Pernas (Two Legged Horse/Asbe du-pa, 2008), da diretora iraniana Samira Makhmalbaf (A Maçã).

Cavalo de Duas Pernas se passa no Afeganistão atual e mostra a relação entre Mirvais (Ziya Mirza Mohamad), um adolescente pobre e com problemas mentais, e um menino rico (Haron Ahad) que perdeu as duas pernas e precisa de alguém que lhe sirva de montaria para levá-lo todo dia à escola. Mirvais é o escolhido entre uma porção de meninos que se submetem à “entrevista de emprego”, e fica contente em poder ganhar um dólar por dia. O que ele não imagina é que o “patrãozinho” irá realmente tratá-lo como um animal, chegando mesmo a lhe colocar um cabresto e alugar a sua montaria para outros garotos ricos.

Ao longo do filme, Samira Makhmalbaf insiste em fazer Mirvais ficar relembrando as imagens da égua dando à luz a um potrinho, que ele viu na escola do “patrãozinho”. E essas imagens são uma metáfora do ingênuo modo de pensar de Mirvais, o qual entende que da mesma forma que a égua “trata mal” o seu filhote para que ele se erga para o mundo, o “patrãozinho” o trata mal porque o quer bem. Além disso, o ato sofrido de sair de sua casa (que é uma tubulação de esgoto, contendo uma minúscula abertura em forma de quadrado) todos os dias pela manhã faz de Mirvais o próprio potrinho.

Como Mirvais é sozinho na vida, quando encontra alguém que precisa dele, rapidamente inverte a situação, passando a ser ele quem precisa desesperadamente do “patrãozinho” sádico e opressor, aguentando tudo até esbarrar com a desumanização completa, o que o faz cair na real. Por fim, seu orgulho o redime.

As cenas de Cavalo de Duas Pernas são chocantes e duras, e o mais difícil é ver que os destratos são cometidos em frente a outras crianças, ao professor da escola e mesmo ao adulto responsável pela tutela do “patrãozinho” enquanto seu pai está viajando, e que todos entendem aquilo como normal. O “patrãozinho” não sente remorso algum, pois o dinheiro e a posição social de seu pai lhe dão o direito de agir assim.

FICHAS TÉCNICAS:

Título original: Je suis le seigneur du château
Diretor: Régis Wargnier
Duração: 88 min.
Ano: 1989
País: França
Gênero: Drama

Titulo Original: Asbe du-pa
Diretor: Samira Makhmalbaf
Duração: 101min
Ano: 2008
País: Afeganistão
Gênero: Drama