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Eu sou o capitão da minha alma

por Milena Azevedo

Nelson Mandela é um dos maiores líderes políticos mundiais. Aguentou a humilhação de ter ficado encarcerado durante vinte e sete anos e quando voltou ao poder, ocupando o cargo de presidente da África do Sul, em 1994, mostrou que não guardava rancor dos brancos e sua meta continuava sendo a extinção do apartheid em prol da união de todas as etnias da África do Sul, que renasceria sob uma nova bandeira.

John Carlin retratou em seu livro “Conquistando o Inimigo” como Mandela foi habilidoso em encontrar meios singelos para promover a concórdia entre brancos e negros, sendo o esporte um dos mais eficazes. Carlin conta como Mandela se aproximou do capitão do time de rúgbi da África do Sul, François Piennar, incentivando-o a acreditar em sua equipe, para que esse a liderasse com garra e ganhasse a Copa do Mundo de Rúgbi do ano de 1995.

Clint Eastwood trouxe essa verídica história para as telas de cinema com Invictus (2009), numa citação ao poema homônimo de William Ernest Henley, o qual é invocado pelo Mandela magnificamente interpretado por Morgan Freeman, em especial seus dois últimos versos: “Eu sou o mestre do meu destino, Eu sou o capitão da minha alma”.

A primeira sequência de Invictus mostra Mandela saindo da prisão, em 1990, passando ao lado de dois campos distintos. Em um campo há garotos brancos, devidamente fardados, treinando rúgbi e, no outro, meninos negros maltrapilhos jogando uma pelada de várzea. Os negros gritam “Mandela!, Mandela!, Mandela!”, enquanto os brancos lamentam o fato de o “terrorista” ter sido solto. Com essas cenas, Eastwood já sintetiza o que virá pela frente.

Ao ser libertado pelo então presidente Frederik de Klerk, Mandela assume como líder do Congresso Nacional Africano (CNA), procurando conter os ânimos exaltados que quase culminaram em mais uma guerra civil na África do Sul.

Em 1994, Madiba, como Mandela gosta de ser chamado, é eleito presidente e dá início à política apaziguadora, começando por arrumar a própria casa, contratando seguranças brancos para trabalhar em conjunto com os negros. Depois, não permite que o nome e as cores da seleção de rúgbi da África do Sul, os Springboks, sejam alterados, pois visualiza que essa medida apenas atrairia mais ojeriza por parte dos brancos e num discurso coerente diz:

“Nós queremos provar que somos o que eles temiam que nós fôssemos. Mas nós precisamos ser melhores do que isso. Temos de surpreendê-los com compaixão, com moderação e generosidade. Eu sei. Todas as coisas que eles nos negaram. Mas não é hora de comemorar uma vingança mesquinha. Este é o momento de construir a nossa nação usando cada tijolo à disposição, mesmo que o tijolo venha embrulhado de verde e dourado. Vocês me elegeram seu líder. Deixem-me liderá-los, agora.”

A partir daí, Madiba monta uma estratégia para elevar o moral dos jogadores de rúgbi dos Springboks, que estão desacreditados pela população e por eles mesmos. Manda chamar o capitão do time, François Piennar (Matt Damon), e passa a lhe dar pequenas lições de vida, fazendo com que ele conheça o poema de William Ernest Henley, seu apoio nos momentos mais difíceis na prisão. Também investe no jogador Chester, único atleta negro do time, para que através dele os negros passem a apoiar a seleção.

Embora a história nos anteceda o resultado final do placar e, consequentemente, do filme, é emocionante ver como a seleção de rúgbi da África do Sul jogou para o seu país, para o seu povo.

E Eastwood mostra que Mandela tinha razão na cena em que dois policiais brancos estão ouvindo o jogo pelo rádio do carro e um menino negro aparece, catando coisa no chão, sem dar a menor atenção ao placar. Quando os Springboks empatam a partida, e uma esperança de vitória existe, o menino se aproxima dos policiais, que o tratam como igual, e os três formam uma eufórica torcida.

O Brasil, país em que o futebol serve de instrumento de alienação sócio-econômica e cultural, e que os jogadores da seleção jogam mais por amor ao dinheiro dos patrocinadores do às cores da camisa, deveria aprender com mais esse exemplo de Nelson Mandela.

Morgan Freeman estudou cada gesto, olhar, andar e atitude de Nelson Mandela, interpretando de forma singular o então ex-presidente da África do Sul, superando até mesmo Frank Langella e sua caracterização de Richard Nixon no filme Nixon/Frost (2008). Em minha opinião, é Oscar pra receber com plateia ovacionando e tudo o mais.

FICHA TÉCNICA

Título original: Invictus

País: EUA

Ano: 2009

Direção: Clint Eastwood

Duração: 134 min

Gênero: Drama