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A Hora e a Vez de Serra Pelada

Respeito profundamente diretores que dão a cara (e o bolso) a tapa e se metem a fazer filmes que muitos não quiseram fazer e que acabam se tornando genuinamente nacionais – não só com cenários e atores brazucas, mas que contem histórias que fazem parte do nosso imaginário. No entanto, depois de assistir ao início de Serra Pelada, de Heitor Dhalia, que se passa no mítico garimpo do Pará, algo na direção muito redondinha me incomodou muito.

Explico: as tomadas aéreas que abrem o filme, e o off do personagem de Júlio Andrade (Joaquim) esclarecendo passagens históricas, enquadram o longa em algo ultrapassado do nosso cinema – apesar de Xingu ter usado os mesmos artifícios há pouco mais de um ano. Em À Deriva, filme brasileiro anterior de Dhalia (ele ainda dirigiu nesse meio tempo 12 Horas, para um grande estúdio americano), conteúdo e forma casam de maneira que a direção se destaca. O filme é solar para uma narradora desabrochando na adolescência; tenso para uma atmosfera de descobertas. Se considerarmos ainda Nina, seu primeiro longa, o efeito é potencializado.

Penso que Heitor Dhalia se notabiliza por ser um esteta – e adoro isso. Foi por isso que senti faltar ousadia na direção de Serra Pelada. É um filme seguro, não arrisca nas tomadas e na fotografia (a não ser quanto à criatividade em terreno de dificuldade: como não foi possível filmar no garimpo que de fato existiu, fez-se uma mistura de cenas de arquivo de TV com imagens rodadas numa pedreira no interior de São Paulo).

Serra_peladaMas o que se perde em direção, ganha-se no roteiro. O suspense é entrecortado com um drama pessoal, com personagens com os quais podemos perfeitamente nos identificar; e a comédia dá a graça de um jeito fino, que soa como o oposto do que se tem visto atualmente (em cópias brasileiras dos pastelões americanos). Vera Egito, que escreveu o filme ao lado do diretor e marido, deixou neste filme muitas características do que já fez.

A música de Antônio Pinto cai perfeitamente bem nas tomadas de prostitutas, tiroteios, e até na fossa de Juliano – uma das melhores cenas do cinema nos últimos tempos, por sinal. A trilha é uma mistura de forró, carimbó e tecnobrega que escancara o Pará.

Serra_Pelada_atoresRoteiro, música, e atores se mostrando em suas melhores condições. Por conta do atraso nas filmagens, Wagner Moura não pôde fazer um dos protagonistas, e o papel ficou para Juliano Cazarré. Moura já disse que Juliano trouxe um perfil que ele não daria ao personagem. E tem razão. Cazarré está estupendo, e tem o nome do personagem não por acaso: tornou-se o Juliano. A ponta de Wagner Moura como Lindo Rico é uma delícia e até Sophie Charlotte se mostra muito mais entregue ao papel do que em qualquer coisa que tenha feito em novelas.

No fim, talvez tenha compreendido melhor a ideia de se fazer o filme desse jeito com a seguinte declaração: “O Brasil mudou muito de feição em 30 anos. Mas ali tem o fundamento do que o Brasil é hoje”, disse Dhalia, em entrevista para a TV. Para contar essa história mítica, o cineasta preferiu não ousar tanto esteticamente. Mas o Brasil também evoluiu muito em termos estéticos em 30 anos.

Há a tentativa, sim, de fazer um filme histórico. De fazer uma superprodução. Mas o resultado, ao fim, é um belo filme de equipe. Sem o frescor de À Deriva, mas com a força de um registro nacional fora de série.

Apenas o Fim

Cartaz Apenas o FimVerborragia, cenários simples, pouco dinheiro, um diretor estreante. Há uma redução um tanto cômoda nessas palavras, é fato, mas elas descrevem bem a noção que se deve ter antes de decidir encarar Apenas o Fim, estreia na direção de Matheus Souza, estudante de cinema da PUC, num projeto da própria faculdade.

A premissa é fantasiosa mas não menos comovente: “eu vou embora de vez, você nunca mais vai me ver”, diz a garota ao namorado. E aí, nos próximos 80 minutos, eles discutem deus e o diabo, laranjas, cadarços e champagne. Parece monótono, mas não é.

O caminho escolhido por Matheus, além de não muito original, é bastante perigoso. Com habilidade para não soar intelectual demais, pendendo para Woody Allen (em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), nem romântico demais, mais ao estilo Richard Linklater (em Antes do Amanhecer), sua narrativa é uma despretensão pretensiosa, como queria Truffaut (em Beijos Proibidos)– que também era papo-cabeça e sensorial. Sabe aquelas besteiras que se fala quando se está apaixonado e descobrindo alguém? E as piadas que só são engraçadas a dois? É com essas bobagens e suas cenas inesquecíveis que o roteiro trabalha.

As referências, portanto, são bem óbvias. Reparem, contudo, que são todas estrangeiras. E aí o filme ganha uma nuance especial: cinema instrospectivo e verborrágico pouco se faz atualmente no Brasil. Exceção – também óbvia – feita a Domingos de Oliveira, o cineasta que, de tão obcecado pelas relações, fez um filme que se chama Amores e outro que se chama Separações, um logo após o outro. Oliveira não se cansou de encher o aprendiz de elogios, depois da estreia de Apenas o Fim no Festival do Rio 2008. A diferença é que Matheus não é rebuscado e, ao invés das citações intelecutais, apela para a empatia com o público através das lembranças pop: He Man, Fanta Uva.

Formalmente, o filme poderia ser mais redondo. Falta um certo tratamento da imagem, com cara de HD demais, e um cuidado maior com a direção de arte. Mesmo assim, algumas sequências se sobressaem, principalmente quando chegam nos planos próximos e closes. As emoções, apesar de obscurecidas pelo humor na maior parte do tempo, aparecem nessas horas, em planos bem pensados.

apenas-o-fim

Por dois motivos vale a referência a Matheus Souza no nosso cinema recente: com pouco, o rapaz mostrou que é um bom condutor de narrativas – apesar da já citada pouca originalidade quanto ao tema. Além disso, a escolha de Gregório Duvivier para protagonista revelou uma caracterização perfeita e fugiu do chavão de atores-diretores que “se” vivem na ficção – como Woody Allen e o próprio Domingos de Oliveira. É um filme honesto porque se auto-explica, na fala de Tom: “falar que falar sobre amor é muito clichê é que é clichê”.

Ficha técnica:

Título original:Apenas o Fim

Gênero:Comédia Dramática

Duração:01 hs 20 min

Ano de lançamento:2009

Direção: Matheus Souza

Roteiro:Matheus Souza

Produção:Mariza Leão e Júlia Ramil

Música:Pedro Carneiro

Fotografia:Júlio Secchin

Direção de arte:Gabriel Cabral e Júlia Garcia

Figurino:Tatiana Pomar

Edição:Júlio Secchin

Estúdio:Atitude Produções

Distribuidora:Filmes do Estação

Besouro – nasce um heroi

E o cinema brasileiro vai ganhar sua primeira super mega produção. Trata-se de Besouro – nasce um heroi, de João Daniel Tikhomiroff.

O roteiro de Besouro tomou forma após o diretor ter lido o livro “Feijoada no Paraíso – a saga de Besouro, o capoeira”, de Marco Carvalho. Tikhomiroff ficou fascinado com a ideia de contar a história desse capoeirista brasileiro, num filme que mesclará fatos reais e ficção, recheado de cenas de luta.

Para ficar por dentro dos bastidores da produção, é só fazer uma visita ao blog oficial do filme.