A parábola de uma paixão por Abbas Kiarostami

A primeira coisa que me veio à cabeça após concluir a sessão de Um Alguém Apaixonado foi: como é que um diretor iraniano filma uma trama no Japão, toda falada em japonês, com atores locais, e consegue extrair tantas sutilezas essenciais ao desenvolvimento da trama usando o recurso de aproveitar as variações do idioma, naturalmente cambiável de acordo com o que manda a situação?

Like Someone in LovePois em sua segunda incursão recente em fazer cinema em terras estrangeiras (lembre-se de Cópia Fiel, filmado na Itália e falado num inglês charmoso por uma protagonista francesa), o iraniano Abbas Kiarostami conseguiu me deixar feliz e perplexa ao mesmo tempo. Um Alguém Apaixonado tem um mote prosaico, como vários outros de sua carreira. A protagonista Akiko, uma estudante que tem uma vida dupla como garota de programa, é mandada à casa de alguém muito respeitado por seu chefe, e com ele passa uma noite e um dia que renderão fortes emoções aos dois. Tudo isso sem muita ação – e eu diria até que basicamente só com diálogos.

O mote é simples, mas a cadência da trama é responsável por puxar a curiosidade do espectador pelo colarinho: à medida em que se amontoam as situações que vão deixando Akiko sufocada em sua vida dupla, estamos todos também divididos. Kiarostami não julga, porque como o faz desde O Vento nos Levará, apenas apura o foco de sua lente nos primeiros planos e observa e respeita seus personagens (muitas vezes reais, mas não neste caso), tornando-os extraordinários. Sabe aquela história do “de perto, ninguém é normal”? E é assim que conseguimos nos colocar na pele de Akiko, de seu chefe, e até do mecânico.

A relação que se estabelece entre a personagem feminina e o professor é sintomática de uma solidão difusa e constante na sociedade contemporânea, poderíamos dizer. Mas a frase já está virando um clichê. A partir dos anos 50, com os filmes do pós-guerra, relações simbióticas entre solitários começaram a pipocar na tela. O Eddie Felson de Paul Newman e os homens sem nome de Clint Eastwood são símbolos dessa tese. O drama de Um Alguém Apaixonado se mostra peculiar, no entanto, por não apelar para personagens párias, mas por eleger gente bem comum. Like Someone

E gente bastante comum que, na sociedade japonesa, claramente dada a esconder seus sofrimentos, aparece pouco nos filmes nipônicos. Mas Akiko é estranhamente transparente e usa uma linguagem formal para falar com o professor, exagerando no rebuscamento até contando uma piada; por outro lado, separa as expressões grosseiras e o tom agudo na discussão com o chefe. O que se vê em Yasujiro Ozu ou em Takeshi Kitano são os dois opostos colocados de forma separada: a linguagem formal ou a linguagem inculta. Kiarostami, então, ganhou em sua aposta: a utilização das nuances da linguagem aparece como algo bastante adequado no desvelo dos personagens.

Mas não são só os diálogos que importam para o diretor. O filme tem de positivo grandes atuações, uma direção de arte e cenários limpos, e, como já foi dito, os primeiros planos que valorizam personagens. É um filme para quem gosta de sorver diálogos e observar os modos da cultura oriental, pelos olhos de um cineasta estrangeiro.

P.S.: Começo a série de críticas do ano no blog com esse filme, lançado no Brasil no finalzinho de 2012, e justifico a escolha com a conclusão de que foi um dos melhores que vi em 2013. Revi no último fim de semana e não pude deixar de expressar essas observações.
Prometo que trarei coisas mais novas nas próximas semanas. :-)

Expectativas para o mundo do cinema em 2014

Feliz ano novo para nós, caros leitores!!

O ano começou sem muitas novidades quentes nas telas, mas à medida que as premiações vão ocorrendo em Hollywood (já tivemos prêmios nos Globos de Ouro, Sindicato dos Diretores e Sindicato Nacional de Críticos), e com o festival de Sundance antecipado (terminou no último domingo), as expectativas para um novo cenário no cinema em 2014 começaram a crescer.

Há dez dias escrevi um texto para o jornal Tribuna do Norte, daqui de Natal, fazendo um balanço dos indicados aos Oscars (anunciados no dia 16). Reproduzo minha análise aqui, logo abaixo, e acrescento: este é o ano de se prestar atenção ao ressurgimento dos “independentes”. Ótimos filmes feitos longe dos grandes estúdios estão concorrendo nas premiações, sem falar no fortalecimento da produção até recentemente pouco conhecida aqui de outros países, como o Chile, Bélgica, Japão e até a África do Sul, prestes a inaugurar um grande complexo de estúdios na Cidade do Cabo.

Estou super na esperança de que cheguem às nossas salas obras interessantes como Dallas Buyers Club, Nebraska, The Grand Master e Inside Llewyn Davis. Por enquanto, fiquemos no aguardo para os Oscars e o Festival de Berlim, logo mais em fevereiro.

Até lá!

Indicações (e ausências) ao Oscar 2014

Publicado em 19/janeiro/2014, na Tribuna do Norte

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou, na última quinta-feira (16), os indicados aos prêmios Oscar em sua 86a. edição. Ainda no fervor da torcida pelos Globos de Ouro – entregues há uma semana – o anúncio em Los Angeles saiu ganhando em publicidade e conquistou pontos junto à audiência que torce o nariz para a indústria. Dos nove indicados à estatueta de melhor filme, quatro são de diretores ditos “independentes”.The 85th Academy Awards® will air live on Oscar® Sunday, February 24, 2013.

O drama sci-fi Gravidade, do mexicano Alfonso Cuarón, e Trapaça, de David O. Russell, são os campeões em indicações – dez cada um. 12 Anos de Escravidão, vencedor do prêmio de melhor drama no Globo de Ouro, ficou com nove indicações. Curiosamente, este último, franco favorito na premiação do último domingo, acabou ficando com apenas um prêmio. Se a bússola pender para o mesmo lado, em 2 de março, os Oscars serão distribuídos de forma balanceada entre a pequena amostra de filmes americanos lançados no ano passado e que foram escolhidos para o páreo.

Entre os indicados nas categorias de atuação, Meryl Streep e Judy Dench, duas damas oscarizadas. Ausências sentidas: Emma Thompson, por Walt nos Bastidores de Mary Poppins, Tom Hanks e Paul Greengrass, protagonista e diretor de Capitão Phillips. Sentidas, aliás, são as ausências desses filmes nos cinemas de Natal. Esta semana entrou em cartaz O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese (indicado a melhor diretor), e já passaram por aqui Gravidade, Álbum de Família e Blue Jasmine. E, é claro, faltou o nosso O Som ao Redor na lista dos candidatos a melhor filme estrangeiro.

A Gangue de Hollywood

A Gangue de Hollywood

O mais recente filme de Sofia Coppola, The Bling Ring, remeteu-me imediatamente a uma canção de Kanye West (rapper presente na trilha, por sinal): “toda bolsa, toda blusa, todo bracelete/ Vem com uma etiqueta de preço, lide com isso”. Na verdade, parafraseando Kanye, o verso ficaria melhor com um “vem com uma etiqueta com marca”. O filme se resumiria bem nisso: é o retrato de uma sociedade entorpecida por etiquetas e nomes famosos, que emprestam valor às etiquetas, e as celebridades que, sendo usadas nesse complexo mecanismo, emprestam desejo às etiquetas, bolsas, braceletes.

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As personagens de The Bling Ring não estudam, não trabalham, não produzem valor. Elas se produzem, desfilam, idolatram, e são admiradas. Fazem girar a roda do consumo americano, numa proporção infinitamente superior àquela a que estamos acostumados em terras ao sul do Equador (se não estivermos falando do consumo de luxo em pequena escala).

O filme se resume nisso. Mostrar um nicho de vida e tentar justificar, com base nesse retrato, roubos cometidos por uma turma de adolescentes em nome das etiquetas e em função do buraco na segurança das casa das celebridades. Era simples. Casas abertas, itens de vestuário transbordando das gavetas. As meninas e meninos perceberam que poderiam entrar despercebidos e levar o que quisessem.

A diretora Sofia Coppola já havia paquerado o tema – o entorpecimento diante da fama e superexposição – no anterior Um Lugar Qualquer, mas neste The Blig Ring o tom de deboche é escancarado. As entrevistas com os protagonistas dos crimes, que intercalam toda a ação, dão um tom documental ao filme. E atuam não com o objetivo de justificá-los, mas de zombar das intenções patéticas dos personagens. E paradoxalmente, tentando não justificar, Sofia acaba o fazendo. O que se passa na mente do espectador pode ser algo do tipo: como é que gente que é tão estimulada cotidianamente – pela TV, pelos amigos e até pelos pais – a adorar etiquetas, marcas e celebridades, vai escapar de ter um destino tão medíocre?

É interessante, ao final, notar como a ironia da diretora se volta contra ela própria. Afinal de contas, não é essa Sofia um produto daquele meio, filha de um diretor de cinema riquíssimo e uma referência para tendências de moda? Basta lembramos que ela tem uma bolsa Louis Vuitton com o seu nome (ou será uma bolsa Prada?).  A Gangue de Hollywood

A Hora e a Vez de Serra Pelada

Respeito profundamente diretores que dão a cara (e o bolso) a tapa e se metem a fazer filmes que muitos não quiseram fazer e que acabam se tornando genuinamente nacionais – não só com cenários e atores brazucas, mas que contem histórias que fazem parte do nosso imaginário. No entanto, depois de assistir ao início de Serra Pelada, de Heitor Dhalia, que se passa no mítico garimpo do Pará, algo na direção muito redondinha me incomodou muito.

Explico: as tomadas aéreas que abrem o filme, e o off do personagem de Júlio Andrade (Joaquim) esclarecendo passagens históricas, enquadram o longa em algo ultrapassado do nosso cinema – apesar de Xingu ter usado os mesmos artifícios há pouco mais de um ano. Em À Deriva, filme brasileiro anterior de Dhalia (ele ainda dirigiu nesse meio tempo 12 Horas, para um grande estúdio americano), conteúdo e forma casam de maneira que a direção se destaca. O filme é solar para uma narradora desabrochando na adolescência; tenso para uma atmosfera de descobertas. Se considerarmos ainda Nina, seu primeiro longa, o efeito é potencializado.

Penso que Heitor Dhalia se notabiliza por ser um esteta – e adoro isso. Foi por isso que senti faltar ousadia na direção de Serra Pelada. É um filme seguro, não arrisca nas tomadas e na fotografia (a não ser quanto à criatividade em terreno de dificuldade: como não foi possível filmar no garimpo que de fato existiu, fez-se uma mistura de cenas de arquivo de TV com imagens rodadas numa pedreira no interior de São Paulo).

Serra_peladaMas o que se perde em direção, ganha-se no roteiro. O suspense é entrecortado com um drama pessoal, com personagens com os quais podemos perfeitamente nos identificar; e a comédia dá a graça de um jeito fino, que soa como o oposto do que se tem visto atualmente (em cópias brasileiras dos pastelões americanos). Vera Egito, que escreveu o filme ao lado do diretor e marido, deixou neste filme muitas características do que já fez.

A música de Antônio Pinto cai perfeitamente bem nas tomadas de prostitutas, tiroteios, e até na fossa de Juliano – uma das melhores cenas do cinema nos últimos tempos, por sinal. A trilha é uma mistura de forró, carimbó e tecnobrega que escancara o Pará.

Serra_Pelada_atoresRoteiro, música, e atores se mostrando em suas melhores condições. Por conta do atraso nas filmagens, Wagner Moura não pôde fazer um dos protagonistas, e o papel ficou para Juliano Cazarré. Moura já disse que Juliano trouxe um perfil que ele não daria ao personagem. E tem razão. Cazarré está estupendo, e tem o nome do personagem não por acaso: tornou-se o Juliano. A ponta de Wagner Moura como Lindo Rico é uma delícia e até Sophie Charlotte se mostra muito mais entregue ao papel do que em qualquer coisa que tenha feito em novelas.

No fim, talvez tenha compreendido melhor a ideia de se fazer o filme desse jeito com a seguinte declaração: “O Brasil mudou muito de feição em 30 anos. Mas ali tem o fundamento do que o Brasil é hoje”, disse Dhalia, em entrevista para a TV. Para contar essa história mítica, o cineasta preferiu não ousar tanto esteticamente. Mas o Brasil também evoluiu muito em termos estéticos em 30 anos.

Há a tentativa, sim, de fazer um filme histórico. De fazer uma superprodução. Mas o resultado, ao fim, é um belo filme de equipe. Sem o frescor de À Deriva, mas com a força de um registro nacional fora de série.

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A Sorte em Suas Mãos

Daniel Burman é um dos meus cineastas preferidos nos últimos tempos. O argentino, de 40 anos e 11 filmes na bagagem, ainda não brilhou no cenário internacional mas tem admiradores cativos lá, entre hermanos, e cá, esta nação rival no futebol. A Sorte em Suas Mãos, seu longa mais recente, ostenta no cartaz um nome famoso no mundo da música: Jorge Drexler, o uruguaio de Al Otro Lado del Rio, é o protagonista, Uriel.

Tudo o que precisamos saber de Uriel é que ele tem dois filhos e uma relação mal resolvida com uma série de mulheres. O vínculo do personagem com os filhos é tamanho que ele explica, logo no começo do filme, que quer fazer uma vasectomia porque deseja manter o compromisso com as crianças que já tem. Escolher nome, escola, tudo de novo? Está fora de cogitação.

foto-la-suerte-en-tus-manos-19-071Desde que comecei a acompanhar a carreira de Daniel Burman, ficou claro que as relações familiares pra ele são motivo de muita reflexão – e mote pra comédias e dramas. O Abraço Partido, de 2004, um de seus primeiros longas e que levou um Urso de Prata em Berlim, trata de uma relação travada entre um pai e um filho, e se conecta às idiossincrasias dos judeus espalhados pelo mundo. As Leis de Família, de 2006, estabelece com este A Sorte… um paralelo curioso. Neles, os filhos acabam por seguir o trabalho dos pais numa situação que se assemelha quase que a um atavismo. Do círculo vicioso da família, nunca saímos. Neste filme, a onipresença da família volta em duas vertentes: do trabalho herdado, aos filhos dos quais Uriel não quer se desvencilhar.

E a relação de Uriel com as mulheres? Bem, nesse particular não posso remexer muito, mas confesso que a visão de amor que Burman me apresentou (por meio de uma certa fala de um suerte-en-tus-manosrabino) me fez sair do cinema mais otimista que o usual. O papel que Valeria Bertuccelli (Gloria) representa não é um dos melhores de sua carreira, mas a personagem define um conceito essencial para a sustentação de um amor na visão do filme: a maturidade. Se antes ela não pôde permanecer na vida de Uriel, será que agora vai conseguir?

A sugestão de que a sorte e o destino se alternam na construção das relações aparece no filme em figurações diversas. O pôquer, o reencontro, a vasectomia. E é curioso como duas noções tão distintas se juntam neste filme de personagens bastante carismáticos. Não porque se advogue uma primazia do acaso sobre todas as coisas, mas porque o roteiro permanece aberto a uma série de interpretações. Diante da história de Uriel, Gloria, e de suas dificuldades, cabe a nós preencher os vazios com nossas histórias de sorte e destino.

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Nova York em três tempos

A conexão veio por acaso. A profusão de arranha-céus de Manhattan estava em três, dos últimos filmes que vi recentemente. Em preto-e-branco, para Billy Wilder e Woody Allen. E num azul soturno para Steve McQueen. Porque a cidade que está perto de abrigar 10 milhões de habitantes nunca esteve tão só. Com um intervalo de 20 anos entre o primeiro e o segundo filme –  Se Meu Apartamento Falasse, de 1959 e Manhattan, de 79 – e de pouco mais de 30 deste para o terceiro – Shame, de 2011, a evolução que se observa poderia caber em quaisquer outras metrópoles. Mas é na cidade que nunca dorme, parafraseando Sinatra, que a maior indústria cinematográfica do mundo se inspira, e é por meio dela que se expressa.

The Apartment (1960)

Se Meu Apartamento Falasse é uma comédia, daquelas aparentemente sem pretensão de Billy Wilder. Só aparentemente. O que se vê ali é uma caracterização bem humorada da tentativa de se encaixar em novos modos de vida no pós-guerra, com escritórios assépticos, competição no mercado de trabalho e uma crescente liberdade sexual feminina. O individualismo extremo, no entanto, é caricaturado de forma inteligente. O personagem de Jack Lemmon é proibido de voltar cedo para casa porque empresta com frequência o apartamento para encontros fortuitos de seus superiores na empresa. Apesar do humor – ou, na verdade, facilitando a compreensão pelo risível – Wilder mostrou que nem só de lucros vive a pós-modernidade. Numa época de consumo hiper estimulado, mulheres são consumidas com desprendimento em um apartamento em Manhattan.

Woody Allen, como é de costume, é mais explícito. Seu alterego em Manhattan, Issac, luta para que a ex-mulher não publique um livro contando detalhes da separação e se alterna entre o desejo e a auto-repressão em um relacionamento com uma atriz de 17 anos. Isaac tem colhão para se livrar da produção de um programa de TV que apela para o ridículo, mas aManhattan grande questão de sua vida é o amor. Ou a dificuldade de vivê-lo. Entre as idas e vindas do relacionamento entre o melhor amigo e a amante, no qual ele acaba se inserindo, Isaac quebra a cara. E Allen termina por nos fazer observar que a ingenuidade dos primeiros anos de vida amorosa é o único remédio para o cinismo da decepção com os relacionamentos.

Para Brandon, o protagonista de Shame, essa faísca de conexão não existe mais. Apesar de focado não só em dificuldades nas relações, mas em uma doença (o vício em sexo), o roteiro do filme é sintomático da fragilidade de laços da nossa vida contemporânea. A primeira, e mais brutalmente retratada, concerne à impossibilidade do personagem de Michael Fassbender de obter prazer em uma relação prosaiShameca. A segunda, introduzida com a entrada de sua irmã (Carey Mulligan, em brilhante papel), é sugerida pela personalidade dependente de Sissy, pela relação travada que tem com o irmão e pela insinuação de que as ligações familiares resultaram em seus fracassos.

Famílias disfuncionais e casamentos errados não eram uma novidade nos tempos das comédias de Billy Wilder. O que se observa – não com insatisfação – é que o tormento com a solidão e a incomunicabilidade pós-modernas estão de novo na pauta do cinema. Precisamos Falar sobre Kevin, Aqui é o Meu Lugar, A Separação, Shame. Dá para se ter uma noção disso revisistando uma pequena lista de filmes lançados por aqui no ano passado. E não é necessário, como eu disse no início do texto, estar em Nova York para sentir ou falar disso. Mas a simbologia de uma cidade que nunca dorme e na qual as pessoas pouco se conectam entre si, esboçada em Shame, é extremamente adequada.

César em cena

César Deve Morrer

Que Shakespeare dá sempre um bom caldo é quase uma noção coletiva. Do Hamlet dos Clowns de Shakespeare aqui em Natal ao Muito Barulho Por Nada de Kenneth Branagh, não vi, até hoje, autor que tenha conseguido estragar texto do dramaturgo inglês. Os italianos Paolo e Vittorio Taviani, no entanto, propuseram algo que foi além da mera versão: transformaram em filme o processo de construção e ensaio de um Shakespeare encenado em uma prisão nos arredores de Roma, na Itália. Da experiência, surgiu César Deve Morrer.

O exercício é mérito do professor Fabio Cavalli, italiano que há anos se dedica a ensinar teatro a trambiqueiros, mafiosos e homicidas encarcerados em Rebbibia. Na empreitada que foi levada ao cinema, montou-se Júlio César, peça de Shakespeare escrita há mais de 400 anos, em que se desenlaçam as artimanhas e conspirações que redundaram no assassinato do rei que dá nome à peça.

Digo que os Taviani foram além porque é raro uma plateia ter a oportunidade de observar, mesmo que pelo filtro do olhar do cineasta, processos como de identificação e rejeição dos personagens no curso de uma montagem teatral. O impacto causado pelas ações de Brutus, Cássio e seus colegas nos detentos de Roma é desconcertante. Além disso, a sensação de claustrofobia causada pelos muros altos, grades e pesados portões de ferro contribui para que personagens e seu público voltem àquela Roma da peça, efeito que os Taviani acentuaram com a fotografia em preto e branco utilizada na maior parte das cenas. cena-do-filme-cesar-deve-morrer-dirigido-pelos-irmaos-paolo-e-vittorio-taviani-o-longa-mostra-um-grupo-de-prisioneiros-que-treinam-para-poder-encenar-publicamente-a-peca-julio-cesar-de-1361903513039_956x500

Mas o que de fato comove, neste trabalho genial – se partirmos do pressuposto de que a ideia é muito simples – é a observação de um mundo para o qual normalmente não queremos olhar, impregnado de um passado sujo e muitas vezes sem perdão. Ver aqueles presidiários tentarem, sem jeito, um papel na peça, e se dedicarem de forma obsessiva a personagens não tão distantes é um conforto, por dois motivos: vemos uma outra face de suas personas, aquela não exibida diante dos carcereiros e juízes; e temos a certeza, mais uma vez, de que o aprendizado por meio da arte é muitas vezes mais eficaz que anos de castigo ou sala de aula.

Fazendo filmes há quase 60 anos, Paolo e Vittorio Taviani fazem parte da mesma cepa do cinema italiano que produziu diretores como Bernardo Bertolucci, Ettore Scola e Marco Bellocchio. Geração que mesmo não tendo aderido ao rigor estético do neo realismo, produziu dramas existenciais e de crítica política. Assistir a César Deve Morrer e Indomável Sonhadora dentro de um período tão curto me fez pensar na experiência neo realista. Em tempos de realidades tão maquiadas e comercializadas, o cinema se volta, novamente, para a crueza da vida?

Beasts of the southern Wild

Candidatos ao Oscar – parte III

A cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já é hoje (24), e ontem finalmente terminei de assistir a todos os candidatos ao Oscar de melhor filme. Tive boas surpresas, pois pensava que acharia Os Miseráveis chatíssimo e não tinha nenhuma expectativa com relação a Indomável Sonhadora – que se revelou meu franco favorito! Vamos aos três últimos concorrentes da categoria melhor filme:

Django Livre (Django Unchained, dir. Quentin Tarantino)

Tarantino conseguiu superar Bastardos Inglórios em ironia e horror com Django Livre. Tratando do Djangomesmo tema – a vingança de um povo oprimido contra o opressor – desta vez o cineasta ficou em casa, trazendo para a premissa um escravo liberto antes da Guerra de Secessão americana que ajuda um caçador de recompensas (personagem do sensacional Christoph Waltz) a identificar três capatazes, e que depois será auxiliado na busca por sua mulher, também escrava.

O roteiro é inventivo, a trilha sonora é magnífica – com temas de Ennio Morricone e Luis Bacalov, responsável pela trilha do primeiro Django, de 1966 – e a direção de arte nos dá a exata noção do quanto Tarantino não é mais aquele diretor independente que não tinha recursos dos primeiros filmes. Mas algo me fez murchar e foi justamente a percepção de que Tarantino hoje pode muito e abusou disso. A partir do momento em que ele aparece no filme (é só uma ponta, mas marquei esse instante), a conclusão fica sendo postergada e muitas cenas dispensáveis entram numa hora em que, em minha opinião, a plateia já está cansada de tanta matança. Afinal de contas, são 2h40 de projeção! O filme vale, no entanto, por tudo o que já mencionei e pelas atuações: nunca vi Leo di Caprio tão bem, Samuel L Jackson tão afiado e Christoph Waltz tão hábil em conquistar a atenção logo no início da jornada.

Os Miseráveis (Les Misérables, dir. Tom Hooper)

Les MisérablesDepois de ler as críticas do Barcinski e do José Geraldo Couto eu estava bem desanimada quanto a Os Miseráveis. Mas foi importante entender, lendo o segundo, que o filme foi feito tomando por base a versão teatral musical de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, e não o romance de Victor Hugo. O filme parece, deveras, uma peça filmada. No entanto, não deixa de ser bem feito, bem cantado e – o que eu considero ser seu objetivo – emocionante.

Não gosto de musicais e Os Miseráveis abusa do conceito. Praticamente todas as falas são cantadas. Mas a produção foi competente em dar aos cenários a ambientação necessária para sugerir os tempos sombrios em que se vivia, e as canções adicionam à obra toda uma carga dramática extra à narrativa de Victor Hugo. O empenho musical dos atores é, aliás, o que mais chama a atenção: tudo foi cantado ao vivo no set, sem playback, e a cena da canção do desabafo de Fantine (Anne Hathaway, indicada ao prêmio de atriz coadjuvante) é uma das mais belas da história dos musicais no cinema. Apesar disso, não acho que seja um filme que mereça o prêmio principal pelo simples fato de não ser uma construção genuinamente cinematográfica, mas apenas a transposição para as telas de uma peça.

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, dir. Benh Zeitlin)

Este sim é, em minha opinião, um exemplo de inovação fílmica. Não historicamente, mas enquanto produto no contexto do que se tem feito nos últimos anos no cinema norteamericano. Indomável Sonhadora é a estreia em longas de um jovem diretor nova-iorquino e mostra, do ponto de vista Beasts of the southern Wild posterde uma menina de seis anos, a vida que ela leva ao lado do pai numa comunidade pobre do Sul dos Estados Unidos inundada por uma tempestade.

O filme é original porque apesar de a narrativa trazer todas as fantasias e a afeição da menina com relação ao pai, que tem uma doença sobre a qual ela pouco entende, e à mãe, que fugiu quando ela era bebê e é evocada em seus momentos de solidão e medo, o quadro que se mostra não é maquiado nem tem resquícios de sonho. O retrato daquela vida é desolador. E o que mais surpreende é que, apesar do horror que se sente ao sermos confrontados com aquele cotidiano, o espectador se vê conquistado pelos personagens, tão selvagens, tão abandonados, e é tomado pelo desejo de uma vida que não seja, como diz a menina, “de aquário”.

Quvenzhané Wallis não foi indicada ao principal prêmio de atuação de graça. A presença da garota conduz o filme, e sua química com o ator que representa seu pai é responsável pelos melhores momentos do filme. Virou meu favorito. É uma pena, no entanto, que a Academia não goste muito de inovações formais.

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Candidatos ao Oscar – parte II

Carnaval passou e a contagem regressiva para a grande festa da Academia está se aproximando do fim. Nos últimos dias vi dois filmes com agentes da CIA como protagonistas e um drama europeu difícil de digerir. Vamos a mais três indicados ao Oscar de melhor filme?

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, dir. Kathryn Bigelow)

Este para mim é um dos roteiros mais impressionantes entre os concorrentes na atual temporada de Zero Dark Thirtyprêmios de Hollywood. Zero Dark Thirty teve sua premissa extraída de uma reportagem de Mark Boal, jornalista/roteirista que também trabalhou com Kathryn Bigelow no premiado Guerra ao Terror. Boal conta aqui a extraordinária história de uma agente da CIA que, durante oito anos, perseguiu uma pista aparentemente sem importância obtida num interrogatório com um prisioneiro sob tortura, e que a levou, ao cabo, à casa onde estava escondido Osama Bin Laden. Vocês podem dizer: ok, esse tipo de filme feito pela Bigelow eu já vi. Mas não menosprezem A Hora Mais Escura. Fala de uma mulher teimosa e perseverante, e do quanto o mundo é feito mais por assessores/especialistas e menos por governantes no poder. A amenizada que a diretora dá na tortura praticada pela CIA é até tolerável. (Ao final, tenta nos convencer de que ela terminou com o governo Obama. Alguém acredita?)

Argo (Argo, dir. Ben Affleck)

Este filme está sendo responsável por uma das disputas mais peculiares do Oscar deste ano. Isso porque Argo foi indicado ao Oscar de melhor filme, e Ben Affleck ficou de fora das indicações de melhor direção, apesar de estar levando todos os prêmios dos sindicatos que reúnem votantes no Oscar – incluindo o de melhor diretor por seu próprio sindicato. Talvez presenciemos no dia 24 de fevereiro uma situação que só ocorreu três vezes na história da Academia: a de um vencedor na categoria de filme sequer ter sido indicado na categoria diretor. O Chico Fireman explica o imbróglio aqui.

ArgoMas e o filme? Trata-se da recriação de episódio que ocorreu em 1979/80, no Irã, quando funcionários da embaixada americana se tornaram reféns por revolucionários que queriam que os Estados Unidos devolvessem o xá Pahlevi, tirano que recebeu asilo em Nova York. Seis funcionários fogem do cerco e se instalam na casa do embaixador do Canadá. O trabalho do personagem de Affleck, o agente Tony Mendez, é retirar os 6 americanos vivos do Irã sem que sejam reconhecidos como os funcionários da embaixada. E aí entra uma tática surreal: eles criam a produção de um filme – que nunca será filmado – para ludibriar os iranianos e retirar os americanos como se fossem parte de uma equipe canadense. O episódio em si é curioso e o suspense que se cria em torno da resolução da história é sufocante, mas confesso que considero o primeiro filme dirigido por Affleck bem superior. Medo da Verdade (Gone, Baby, Gone) tem um roteiro intrincado e de resolução inovadora. E até seu segundo filme, Atração Perigosa (The Town), tem uma direção encorpada pela familiriadade com que Affleck tratou de problemas do próprio bairro onde foi criado. Talvez a Academia não esteja tão equivocada assim.

Amor (Amour, dir. Michael Haneke)

Amor é a zebra da categoria melhor filme, já que é um filme austro-franco-alemão, de um diretor difícil, e que normalmente seria indicado apenas ao prêmio de melhor filme estrangeiro – como de fato foi. Mas Amor tem feito uma carreira importante em grandes festivais, já que levou a Palma de Ouro em Cannes 2012, o prêmio de melhor filme no Bafta (o Oscar britânico) e prêmios de filme estrangeiro em Toronto e no Globo de Ouro.

É um filme pesado, que fala de um casal de idosos até então bastante ativos e que precisa lidar Amourcom todas as limitações que a mulher passa a vivenciar no cotidiano depois de ter um ataque cardíaco e começar a definhar em função da velhice. Um choque de realidade sobre o envelhecimento, mas ouso dizer que é só isso. Os americanos fizeram um filme tão reflexivo quanto este sobre o mesmo assunto – Longe Dela, de 2006 – e os argentinos um bem mais lírico – O Filho da Noiva, de 2001. É um longa sofrido, como todos os outros de Haneke, e muito me admira que Hollywood tenha decidido indicar este ao Oscar de melhor filme, e não A Fita Branca, outro exemplar do diretor indicado ao prêmio de filme estrangeiro, em 2010 (será que a idade média dos votantes da Academia diz algo sobre isso?).

Lincoln Poster

Candidatos ao Oscar – parte I

Todo ano é o mesmo roteiro. Começa com Sundance, passa por Berlim e termina em Cannes a temporada de prêmios que mais me agrada. Não escondo pra ninguém que gosto mesmo é daqueles filmes que muita gente considera chatos, com um ritmo e um tom diferentes e que nas locadoras – as que ainda sobrevivem – estão cadastrados como “de arte”. Filmes que fogem da fórmula e nos mostram como este mundo é diverso.

Mas não escondo também que acompanho com certa ansiedade a temporada que rola lá por Hollywood. Globos de Ouro, PGA, SAG, DAG, Oscars. Ansiedade provocada pela superexposição que esses prêmios recebem por parte da imprensa, claro, mas particularmente porque todo fevereiro é a mesma coisa: saem os indicados e geralmente os filmes mais elogiados do ano anterior ainda  não chegaram aos nossos cinemas. Este ano, como alguns dos filmes estão em cartaz em Natal, e como outros eu obterei por vias escusas (obrigada, Vítor!), resolvi fazer um apanhado do que andei vendo. A abordagem vai ser rápida, pra cobrir a maior gama possível, como os indicados a filme estrangeiro e documentário, mas espero que acompanhem!

As Aventuras de Pi (Life of Pi, dir. Ang Lee)

A história do garoto que vivia num zoológico na Índia, sofre um naufrágio com a família e sobrevive em um bote com uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre Life of Pide bengala chamado Richard Parker, resgata uma narrativa há algum tempo relegada aos filmes infantis em Hollywood – a fábula. Ang Lee fez um filme de ação misturado com suspense e drama, mas o forte de As Aventuras de Pi são as simpáticas atuações de Irrfan Khan e Suraj Sharma e a condução da narrativa, que consegue nos fazer parar para ouvir uma história surreal (só aparentemente), com uma moral interessante. Foi indicado a 11 Oscars, incluindo melhor filme e melhor direção para Ang Lee. Eu fiquei achando que não é para tanto.

Lincoln (Lincoln, dir. Steven Spielberg)

As cenas iniciais de Lincoln não escondem: o filme toma partido, defendendo com todos os recursos de Spielberg já conhecidos – música pra chorar, discursos libertários recitados por um soldado negro e contraluzes nLincoln Postero rosto de Daniel Day-Lewis – os meios utilizados pelo então presidente norte-americano Abraham Lincoln para conseguir a aprovação da emenda que acabou com a escravidão nos Estados Unidos. Mas mais que dar uma aula de política ao mostrar todos os detalhes de uma longa negociação entre o Executivo e o Parlamento para a aprovação de uma emenda à Constituição (oi, Mensalão), o filme, apesar de cansativo para muitos, se revela na construção do protagonista. Construção elogiável não só pelo mérito de Daniel Day-Lewis (que relutou por sete anos a aceitar o convite de Spielberg por não se achar capaz para o papel) mas pelo intrigante roteiro de Tony Kushner (baseado em biografia de Doris Kearns Goodwin) que deixa apenas rastros de uma personalidade ambígua para que o espectador junte os pontos. Indicado a 12 Oscars.

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, dir. David O. Russell)

Silver Linings Playbook é o “bonitinho” do Oscar. Apesar de tangenciar, com coragemSilver Linings Cartaz, a causa dos transtornos de comportamento que andam tão na moda (bipolar, ansiedade), o filme é uma bela reinvenção dos dramas românticos com os queridinhos atuais da América. Seu forte, no entanto, é a comédia, que dá à obra os momentos mais memoráveis e os personagens mais interessantes. Robert de Niro, como o pai do protagonista, é um caso à parte. Apesar de repetir um papel que tem feito à exaustão, o do pai controlador e neurótico, sua atuação parece conduzir todo o elenco nas cenas coletivas de humor. Faz rir e chorar, e foi indicado a 8 Oscars (incluindo o de melhor ator coadjuvante para de Niro, lembrado depois de 21 anos sem indicações).