Há pequenos filmes grandiosos que são esquecidos com o tempo, mas também há aqueles que nem chegam a ser esquecidos porque nem vistos foram. É o caso de The Chess Players (Shatranj Ke Khilari), produção indiana de 1977.
The Chess Players narra a história dos amigos Mirza (Sanjeev Kumar) e Mir (Saeed Jaffrey), membros da nobreza da cidade de Lucknow, que descobrem o jogo de xadrez e passam horas procurando fazer o movimento perfeito, disputando várias partidas durante o dia. O prazer do jogo faz com que negligenciem suas respectivas esposas e demais atividades, vivenciando um estado de torpor, completamente alheios aos acontecimentos políticos que os cercam, estando a Índia prestes a ser invadida pela Companhia das Índias Orientais, controlada pela Inglaterra, para anexar o Estado indiano de Awadh.
Quem detém o poder no Estado de Awadh, cuja capital é Lucknow, é o Nawab Wajid Ali Shah (Amjad Khan), que não entende nada de política, mas gosta da ostentação da vida na corte e passa seus dias compondo versos e cantando, totalmente imerso nos prazeres da arte, porque confiante nos “tratados de amizade”, estabelecidos com a Companhia das Índias Orientais. Como a Companhia das Índias Orientais estava de olho em Awadh, considerado “o celeiro indiano” para a Inglaterra, o voluptuoso e bonachão Wajid Ali Shah é acusado de má administração, pelo General James Outram (Richard Attenborough), o qual se utilizou dessa artimanha para justificar a anexação de Awadh (que os ingleses chamavam de Oudh) à Inglaterra, em 1856, pois já não bastava receber bens e impostos tanto do Nawab quanto dos nobres.
O premiado cineasta indiano Satyajit Ray (mais conhecido pela “trilogia de Apu”, com os filmes Pather Panchali, Aparajito e Apur Sansar) escreveu o roteiro de Shatranj Ke Khilari/The Chess Players a partir do conto homônimo, de autoria de Munshi Premchand (e em 1981, veio a adaptar outro conto de Premchand, Sadgati/Deliverance), transformando-o em uma película de duas partes, totalizando 113 minutos.
Satyajit Ray cria uma porção de situações cômicas para os nobres Mirza e Mir (sendo a mais engraçada aquela em que eles se veem impossibilitados de jogar porque a esposa de Mirza surrupiou as peças, então idealizam uma porção de planos para alimentar seu vício), para Wajid Ali Shah (encantado com seu trono, mais pela beleza do que por ser um símbolo de status) e para os ingleses (o culto Capitão Weston, interpretado por Tom Alter, assistente pessoal do General Outram, é um amante da cultura indiana, contrastando com o rude General, que só quer saber dos dividendos), mostrando que se pode fazer humor inteligente da mais alta estirpe.
O jogo de xadrez que envolve Mirza e Mir é, na verdade, uma metáfora para a obsessão do General Outram em invadir Awadh, o qual movimenta cuidadosamente seus peões (os nobres indianos) e a própria Rainha da Inglaterra, visando o xeque-mate no “rei” Wajid Ali Shah. Além disso, Mirza e Mir, que antes desconheciam a variante britânica do xadrez (que encurta o tempo do jogo), decidem deixar o seu modo tradicional de jogar, para praticá-la. Uma metanarrativa extremamente bem feita.
The Chess Players foi o filme mais caro de Satyajit Ray, e um dos mais caros do cinema indiano feito em Bombaim, no século XX, tendo custado dois milhões de rúpias. Também foi o primeiro filme do diretor falado em Urdu e Hindi, e não no dialeto Bengali, como era de costume.
O filme foi exibido no Brasil, com o título de Os Jogadores do Fracasso, na 24ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano 2000. E está mais do que na hora de entrar em algum catálogo de DVD de alguma distribuidora brasileira.
The Chess Players foi um dos filmes indianos que mais me marcaram e que pouca gente conhece.
Ficha técnica:
Título original: Shatranj Ke Khilari (aka The Chess Players)
Direção: Satyajit Ray
Ano: 1977
País: Índia
Duração: 113 minutos
Gênero: Drama
Fim da 1ª Parte | Início da 2ª Parte
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outubro 14th, 2009 at 3h36
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