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Dinheiro na mão é vendaval

por Milena Azevedo

Há seis anos, desde que filmou a biografia de Alexandre, o grande, Oliver Stone só vinha dirigindo documentários. Estar totalmente imerso em temas atuais deve ter feito Stone optar por trazer à vida o personagem Gordon Gekko (pelo qual Michael Douglas ganhou Oscar e Globo de Ouro de Melhor Ator, em 1988), denunciando os bastidores do jogo de poder entre os grandes empresários, a bolsa de valores, os banqueiros e o Estado.

Em Wall Street: o dinheiro nunca dorme, acompanhamos a saída de Gekko da prisão, onde passou 8 anos. Com bastante tempo para refletir sobre sua vida, escreve um livro afirmando que a ganância é algo bom, pois é ela quem move o mundo. O que Gekko não sabe é que sua filha Winnie (Carey Mulligan) está noiva de um corretor da bolsa de valores, o idealista Jacob Moore (Shia LaBeouf), que, assim como ele, sabe fazer o dinheiro girar (nas palavras de Gekko: “um pescador reconhece o outro”). Quando Moore o procura, pedindo ajuda para enfrentar o magnata inescrupuloso Bretton James (Josh Brolin), Gekko vê uma oportunidade de voltar aos negócios e reconquistar o amor de sua filha.

A trama desse segundo Wall Street se passa em 2008, ano em que houve a segunda grande quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, com a Dow Jones caindo vertiginosamente e o Banco Central precisando desesperadamente salvar a economia interna norte-americana, o que provocou uma recessão econômica de ordem mundial. Nesse contexto, Stone teve coragem de mostrar (de forma mais veemente do que fizera em 1987) os jogos de poder entre grandes empresários, banqueiros e investidores, que utilizam a especulação para conseguir seus objetivos escusos, e se recusam a enfrentar as conseqüências de seus atos e arcar com os enormes prejuízos não calculados (e a corda arrebenta principalmente do lado dos mais fracos, a população).

A tríade Moore (investidor idealista e com bom coração) – James (investidor arrogante e especulador , sedento pelo poder que o dinheiro pode comprar) – Gekko (investidor raposa velha, cínico, que trata o dinheiro como uma amante) é perfeita, e mostra que vence não aquele que melhor conhece o mercado, mas aquele que, além de o conhecer, pensa no bem comum.

Oliver Stone fez uma continuação bem melhor do que o filme original, caprichou nos diálogos e na trilha sonora anos 80 (assinada pela dupla David Byrne e Bryan Eno, resgatando inclusive This must be the place, do Talking Heads, da primeira trilha), e, de quebra, humanizou Gordon Gekko, ainda que um lobo em pele de cordeiro. As participações especiais de Frank Langella, Eli Wallach, Susan Sarandon e Charlie Sheen (o Bud Fox, primeiro discípulo de Gekko) engrandecem esse filme que já nasceu espetacular.

Ficha técnica:

Título original: Wall Street – Money Never Sleeps

Direção: Oliver Stone

Gênero: Drama

País: EUA

Ano: 2010

Dilemas da Adolescência

por Milena Azevedo

Filmes sobre adolescentes e os prazeres e amarguras dessa etapa da vida há aos montes, desde o terno Vidas sem rumo (1982) ao polêmico Kids (1995). No entanto, os filmes norte-americanos de adolescentes, em geral, não focam a relação de pais e filhos de forma tão presente quanto os latino-americanos. Como exemplo, temos o argentino Glue – uma história adolescente no meio do nada (2006), de Alexis dos Santos, e o brasileiro As melhores coisas do mundo (2010), da Laís Bodanzky.

Arrisco até a afirmar que As melhores coisas do mundo é um dos mais completos retratos sobre a adolescência atual, pois repagina os clichês do gênero e enfoca temas como a separação em decorrência da “saída do armário” do pai; os preconceitos e tabus que existem dentro do colégio; os espaços privados que se tornam públicos, ampliando a crueldade do bullying; a ingenuidade dos sentimentos intensos que leva à dramatização da dor; e um adolescente que vê tudo isso e precisa tocar os acordes certos para não desafinar.

Mano (Francisco Miguez) sonha em ser um guitarrista famoso, mas precisa estudar violão, enamora-se pela “piriguete” do colégio, não entende a decisão do seu pai e relata tudo o que lhe acontece à sua amiga Carol (Gabriela Rocha), que por sua vez caiu de amores pelo professor de Física (Caio Blat). Enquanto desmorona a relação de seu irmão, Pedro (Fiuk), com a namorada, Mano tenta ajudar a sua mãe (Denise Fraga) a tocar a vida e ainda tem que fazer média com seus amigos. Aos poucos Mano vai se dando conta de que as desilusões e decepções estão lhe abrindo as portas para o amadurecimento e a felicidade.

O sucesso de As melhores coisas do mundo, além da mão certeira da Laís Bodanzky, é o roteiro, assinado por Luis Bolognesi, que adaptou a série de livros “Mano”, de autoria de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, retratando de forma honesta a realidade da adolescência urbana de classe média brasileira.


Vencedor da 14ª edição do CinePE, As melhores coisas do mundo foi um dos filmes selecionados para a lista que indicará o concorrente brasileiro a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011.

FICHA TÉCNICA

Direção: Laís Bodanzky

Ano: 2010

Nacionalidade: Brasileiro

Gênero: Drama

Duração: 104 minutos

Mapeando sentimentos

por Milena Azevedo

Em seu mais recente filme, Isabel Coixet aproximou-se da estética e da forma de contar histórias de um dos seus diretores favoritos, o chinês Wong Kar-Wai (Amor à flor da pele) – uma vez que ambos tem predileção por personagens solitários, que geralmente se encontram por acaso, mas que não se permitem amar quem realmente lhes reserva um sentimento mais profundo –, substituindo o silêncio dele por sons de pés andando na rua, metrô seguindo viagem, facas cortando peixes que depois fritam em óleo fervente, pessoas ingerindo ruidosamente o ramen (prato oriental à base de ervas, pedaços de galinha ou porco e noddles), gozo. Sensível ao extremo, sem ser piegas, em Mapa dos sons de Tóquio vemos um trabalho tão maduro quanto A vida secreta das palavras.

Ryu (Rinko Kikuchi) é a heroína do filme. Uma mulher triste e misteriosa que trabalha no mercado de peixe e é assassina de aluguel nos dias de folga; seu remorso pelas pessoas que matou a faz visitar constantemente os cemitérios para cuidar de seus túmulos e lhes fazer oferendas.

Somos apresentados à Ryu pelas palavras do velho (Min Tanaka) que coleta e grava os sons urbanos para depois vendê-los às emissoras de TV e ao cinema. O velho se encanta pela introspecção dela e procura ser seu amigo, gravando as monossilábicas respostas de Ryu às suas perguntas e seguindo seus passos pelas noites luminosas da inebriante capital japonesa. Seus relatos doces, embora envoltos por um leve toque de amargura, nos fazem crer que, apesar de ser uma mulher determinada, Ryu punia a si mesma por não se permitir amar e nem deixar que lhe amassem, contentando-se em ser a sombra de outro amor para obter prazer e um mínimo de felicidade.

O suicídio da filha do poderoso empresário Nagara-san (Takeo Nakahara) é o evento que desencadeia a ligação entre todos os personagens da trama, alterando a vida de cada um deles. Contratada para assassinar o espanhol David (Sergi López), namorado da garota morta, Ryu ouve sua história, aceita ser sua amante e se apaixona por ele, hesitando em cumprir a sua missão, gesto que lhe trará consequências indesejadas.

Coixet vai mapeando, entrecortadamente, os tormentos dos personagens e as ironias de seus encontros, culminando com os remorsos de cada um sobre o que deixaram de fazer para evitar a perda das pessoas as quais queriam bem.

Mapa dos sons de Tóquio não é um filme sobre a cultura nipônica e nem sobre amor, mas sobre culpa, expiação e medo de se deixar levar pelos sentimentos.

Ficha Técnica:

Título Original: Map of the Sounds of Tokyo
País de Origem: Espanha/Japão
Direção: Isabel Coixet
Duração: 109 minutos
Ano: 2009
Gênero: Drama

Imoral, ilegal, armado e perigoso

por Milena Azevedo


Los hermanos argentinos já mostraram ao mundo que sabem fazer filmes, colecionando prêmios em diversos festivais e ganhando por duas vezes o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1986 e 2010.

A Argentina também é um pólo da arte sequencial, produtora de pérolas como El Eternauta, Alvar Mayor, Ernie Pike, El Loco Chávez e, claro, Mafalda.

Então, já estava mais do que na hora de juntar cinema e quadrinhos e voltar a reinvestir em animações. O desenhista e escritor Roberto Fontanarrosa (falecido em 2007), conhecido pelo apelido de El Negro, foi um dos que mais prestou serviço para o cinema de animação argentino. Ele inspirou curtas-metragens de animação, como La Planicie de Yothosawa (1991), desenhou e pintou a óleo o média-metragem animado da adaptação do tradicional poema Martín Fierro, de José Hernández, e em 2009 teve um personagem seu, Boogie, el aceitoso, criado em 1972, como destaque de uma animação homônima (apesar de existir um fragmento de um curta animado, no You Tube, anterior a essa produção).

Boogie é uma sátira ao excesso de violência presente no cinema hodierno e aos clássicos personagens de filmes policiais norte-americanos, especialmente Dirty Harry, bem ao estilo “atiro antes e falo depois”, carregando todos os estereótipos do gênero: misógino, racista, bruto, frio e sanguinário.

O diretor e roteirista Gustavo Cova, que já havia tido experiência com a curta série animada para a TV City Hunters (2006), baseada em desenhos de Milo Manara, aceitou o desafio de dirigir a adaptação de Boogie, el aceitoso, contando com o trabalho magnífico do roteirista Marcelo Paez-Cubells.

A trama da animação gira em torno do personagem-título, que está voltando para sua cidade após ter lutado alguns anos no Vietnã, no Camboja, no Golfo e no Iraque. E Boogie já chega botando as mangas de fora e atirando pra tudo quanto é lado, mostrando que está na área. O que leva Sonny Calabria, o chefe da máfia local, a contratá-lo para dar cabo de uma testemunha que pode acabar com o seu império. No entanto, o preço pedido por Boogie para executar o serviço é muito alto e assim um novo assassino de aluguel é chamado: Jim Blackburn. Ao saber que foi trocado por um assassino com técnicas mais modernas, Boogie rapta a testemunha e trava vários confrontos com Blackburn para provar que os métodos da velha guarda ainda não estão tão ultrapassados.

Gustavo Cova e Marcelo Paez-Cubells rechearam a animação, que mistura 2D com cenários 3D, com diversas citações cinematográficas, entre elas: O Poderoso Chefão, Apocalipse Now, Agarra-me se puderes e Sin City, lembrando também a carnificina de Tarantino em Cães de Aluguel e Pulp Fiction, e de Martin Scorsese em Taxi Driver e Os Infiltrados.

Ao longo do ano de 2009, Boogie, el aceitoso, foi exibido nos festivais da Croácia, do Rio de Janeiro e de Annecy, com ótima receptividade.

No Brasil, o personagem é pouco conhecido e teve apenas um título publicado pela L&PM, na década de 1980, chamado Boogie, o Seboso. Mas, mesmo quem nunca ouviu falar em Boogie, vai gostar dessa animação de humor negro com uma dose exagerada de violência, e das tiradas sarcásticas do matador loiro: “Pertenço à comunidade racista mais numerosa… a que detesta os pobres” ou “A principal causa da violência é que algumas pessoas querem tirar comida de outras”.

Ficha Técnica:

Título Original: Boogie, el aceitoso

Direção: Gustavo Cova

País: Argentina e México

Gênero: Animação

Ano: 2009

Duração: 85 minutos

Eu sou o capitão da minha alma

por Milena Azevedo

Nelson Mandela é um dos maiores líderes políticos mundiais. Aguentou a humilhação de ter ficado encarcerado durante vinte e sete anos e quando voltou ao poder, ocupando o cargo de presidente da África do Sul, em 1994, mostrou que não guardava rancor dos brancos e sua meta continuava sendo a extinção do apartheid em prol da união de todas as etnias da África do Sul, que renasceria sob uma nova bandeira.

John Carlin retratou em seu livro “Conquistando o Inimigo” como Mandela foi habilidoso em encontrar meios singelos para promover a concórdia entre brancos e negros, sendo o esporte um dos mais eficazes. Carlin conta como Mandela se aproximou do capitão do time de rúgbi da África do Sul, François Piennar, incentivando-o a acreditar em sua equipe, para que esse a liderasse com garra e ganhasse a Copa do Mundo de Rúgbi do ano de 1995.

Clint Eastwood trouxe essa verídica história para as telas de cinema com Invictus (2009), numa citação ao poema homônimo de William Ernest Henley, o qual é invocado pelo Mandela magnificamente interpretado por Morgan Freeman, em especial seus dois últimos versos: “Eu sou o mestre do meu destino, Eu sou o capitão da minha alma”.

A primeira sequência de Invictus mostra Mandela saindo da prisão, em 1990, passando ao lado de dois campos distintos. Em um campo há garotos brancos, devidamente fardados, treinando rúgbi e, no outro, meninos negros maltrapilhos jogando uma pelada de várzea. Os negros gritam “Mandela!, Mandela!, Mandela!”, enquanto os brancos lamentam o fato de o “terrorista” ter sido solto. Com essas cenas, Eastwood já sintetiza o que virá pela frente.

Ao ser libertado pelo então presidente Frederik de Klerk, Mandela assume como líder do Congresso Nacional Africano (CNA), procurando conter os ânimos exaltados que quase culminaram em mais uma guerra civil na África do Sul.

Em 1994, Madiba, como Mandela gosta de ser chamado, é eleito presidente e dá início à política apaziguadora, começando por arrumar a própria casa, contratando seguranças brancos para trabalhar em conjunto com os negros. Depois, não permite que o nome e as cores da seleção de rúgbi da África do Sul, os Springboks, sejam alterados, pois visualiza que essa medida apenas atrairia mais ojeriza por parte dos brancos e num discurso coerente diz:

“Nós queremos provar que somos o que eles temiam que nós fôssemos. Mas nós precisamos ser melhores do que isso. Temos de surpreendê-los com compaixão, com moderação e generosidade. Eu sei. Todas as coisas que eles nos negaram. Mas não é hora de comemorar uma vingança mesquinha. Este é o momento de construir a nossa nação usando cada tijolo à disposição, mesmo que o tijolo venha embrulhado de verde e dourado. Vocês me elegeram seu líder. Deixem-me liderá-los, agora.”

A partir daí, Madiba monta uma estratégia para elevar o moral dos jogadores de rúgbi dos Springboks, que estão desacreditados pela população e por eles mesmos. Manda chamar o capitão do time, François Piennar (Matt Damon), e passa a lhe dar pequenas lições de vida, fazendo com que ele conheça o poema de William Ernest Henley, seu apoio nos momentos mais difíceis na prisão. Também investe no jogador Chester, único atleta negro do time, para que através dele os negros passem a apoiar a seleção.

Embora a história nos anteceda o resultado final do placar e, consequentemente, do filme, é emocionante ver como a seleção de rúgbi da África do Sul jogou para o seu país, para o seu povo.

E Eastwood mostra que Mandela tinha razão na cena em que dois policiais brancos estão ouvindo o jogo pelo rádio do carro e um menino negro aparece, catando coisa no chão, sem dar a menor atenção ao placar. Quando os Springboks empatam a partida, e uma esperança de vitória existe, o menino se aproxima dos policiais, que o tratam como igual, e os três formam uma eufórica torcida.

O Brasil, país em que o futebol serve de instrumento de alienação sócio-econômica e cultural, e que os jogadores da seleção jogam mais por amor ao dinheiro dos patrocinadores do às cores da camisa, deveria aprender com mais esse exemplo de Nelson Mandela.

Morgan Freeman estudou cada gesto, olhar, andar e atitude de Nelson Mandela, interpretando de forma singular o então ex-presidente da África do Sul, superando até mesmo Frank Langella e sua caracterização de Richard Nixon no filme Nixon/Frost (2008). Em minha opinião, é Oscar pra receber com plateia ovacionando e tudo o mais.

FICHA TÉCNICA

Título original: Invictus

País: EUA

Ano: 2009

Direção: Clint Eastwood

Duração: 134 min

Gênero: Drama

O que vale mais, o livro ou a sabedoria?

por Milena Azevedo

Estudar é uma tarefa árdua. O regozijo que o estudo proporciona é solitário e extremamente ínfimo se comparado a outras formas de deleite sensual. E os louros de intensas horas dispensadas sobre os livros pouquíssimas vezes rendem manchetes de jornal. Por isso, ter um diploma e até mesmo seguir carreira acadêmica é, no século XXI, considerado por alguns como algo supérfluo, haja vista as novas “cyberprofissões” e a facilidade que se tem de entrar no mercado de trabalho apenas com conhecimentos técnicos e práticos. Isso nos faz voltar à questão de qual é a melhor forma de se aprender, se com os livros ou empiricamente, através dos erros e acertos diários.

A jornalista inglesa Lynn Barber, brilhante aluna que foi, quis compartilhar sua experiência a respeito do dilema “continuar os estudos ou viver a vida?” em sua autobiografia An Education, autobiografia essa que teve início em um artigo escrito para a revista literária Granta. Nick Hornby (Alta Fidelidade, Um grande garoto), ao ler esse artigo, entendeu que ele seria deveras útil para muitas jovens de hoje, e partiu para roteirizar uma adaptação, culminando com o filme Educação (2009), dirigido por Lone Scherfig (Italiano para principiantes) e estrelado por Carey Mulligan, Peter Sarsgaard e Alfred Molina, com a participação especial de Emma Thompson.

A trama de Educação se passa em Londres, no ano de 1961, focando a vida da estudante Jenny Miller (Carey Mulligan), cujo pai (Alfred Molina) exige horas de dedicação à escola e ao violoncelo, visando a sua entrada na conceituada universidade de Oxford. Jenny seguia a cartilha de seu pai, embora, como toda adolescente, burlasse uma ou outra regra. O céu fica mais azul para Jenny quando ela conhece o fino trambiqueiro David (Peter Sarsgaard), que lhe apresenta a uma vida de glamour, arte e noites boêmias. Seduzida pelos prazeres fortuitos que David e seus amigos lhe proporcionam, Jenny questiona a escola e os conselhos de suas professoras, entendendo que lhe seria mais vantajoso pegar um atalho para a vida adulta.

Fugindo de suas responsabilidades, e ganhando o apoio dos pais para fazê-lo – totalmente vislumbrados com o novo status social que David proporcionará a sua filha –, Jenny não percebe que em plena década na qual as mulheres estão se firmando e conseguindo seus direitos como cidadãs na sociedade, ela acaba agindo de forma retrógrada, prendendo-se a um casamento para ganhar a liberdade de uma vida fruitiva.

Os diálogos espertos de Nick Hornby, a direção eficiente de Lone Scherfig e a atuação maravilhosa da estreante Carey Mulligan, totalmente à vontade no papel de Jenny, fazem de Educação uma bela aula sobre escolhas e amadurecimento.

Educação foi o vencedor do Sundance 2009 de Melhor Filme de World Cinema Categoria Drama pelo voto popular e concorre ao Oscar 2010 em três categorias: melhor filme, melhor atriz e melhor roteiro adaptado.

Luta de classes infantilista

Com o advento do catolicismo, as crianças passaram a ser vistas como pequenos seres de pureza singular, verdadeiros anjinhos sem asas, após receberem as águas purificadoras do batismo. No entanto, quem lida com crianças durante um certo tempo sabe que elas são capazes de atos deveras crueis e ofensivos, ora fruto da imitação dos familiares, ora como uma forma de chamar atenção ou já uma demonstração de uma característica de sua personalidade.

Eu sou o senhor do castelo (Je suis le seigneur du château, 1989), filme francês dirigido por Régis Wargnier (Indochina), que adaptou o romance setentista I´m the king of the castle, da escritora britânica Susan Hill, mostra que uma criança mimada e rica é capaz de humilhar uma criança pobre simplesmente pelo prazer de pertencer a uma “classe superior”. Logo no início do filme, ao ler um poema para a sua mãe doente, Thomas (Régis Arpin) já diz a que veio: “não quero viver, quero reinar”. Com o falecimento da mãe, o menino se enclausura majestosamente em seu quarto e não fica nada contente em saber que o pai, Monsieur Bréaud (Jean Rochefort), planeja contratar uma governanta, Madame Vernet (Dominique Blanc), cujo filho Charles (David Behar) tem a mesma idade que ele.

Thomas trata Charles como um invasor, ao mesmo tempo em que aceita os cuidados quase maternos de Madame Vernet (embora externamente lute contra os mesmos em memória a sua mãe). Para Thomas, Charles vem se apossar de tudo o que ele quer obter: amor do pai e carinho e atenção de Madame Vernet. Como guardião de seu lar, o suntuoso castelo, Thomas deixa bem claro para Charles a sua condição de “empregado”, de alguém que está ali porque o próprio pai não pode lhe dar abrigo e conforto, afirmando diversas vezes que ele lhe deve obediência, além de mentir e pregar peças de mau gosto para amedrontar e afugentar o outro.

Ao perceber que aos poucos Madame Vernet e Charles estão conquistando o apreço de seu pai e que em breve farão parte da família, Thomas fica mais enraivecido e usa Charles para humilhar o casal, promovendo uma dupla vingança.

Mas o algoz expia seus atos malcriados ao descobrir, tarde demais, que Charles não era o inimigo, que ele não queria usurpar nada nem dentro e nem nos arredores do castelo, numa cena tocante, homenagem de Régis Wargnier ao filme Os Incompreendidos, de François Truffaut.

Mais recentemente tivemos outro filme ícone da crueldade infantil, Cavalo de Duas Pernas (Two Legged Horse/Asbe du-pa, 2008), da diretora iraniana Samira Makhmalbaf (A Maçã).

Cavalo de Duas Pernas se passa no Afeganistão atual e mostra a relação entre Mirvais (Ziya Mirza Mohamad), um adolescente pobre e com problemas mentais, e um menino rico (Haron Ahad) que perdeu as duas pernas e precisa de alguém que lhe sirva de montaria para levá-lo todo dia à escola. Mirvais é o escolhido entre uma porção de meninos que se submetem à “entrevista de emprego”, e fica contente em poder ganhar um dólar por dia. O que ele não imagina é que o “patrãozinho” irá realmente tratá-lo como um animal, chegando mesmo a lhe colocar um cabresto e alugar a sua montaria para outros garotos ricos.

Ao longo do filme, Samira Makhmalbaf insiste em fazer Mirvais ficar relembrando as imagens da égua dando à luz a um potrinho, que ele viu na escola do “patrãozinho”. E essas imagens são uma metáfora do ingênuo modo de pensar de Mirvais, o qual entende que da mesma forma que a égua “trata mal” o seu filhote para que ele se erga para o mundo, o “patrãozinho” o trata mal porque o quer bem. Além disso, o ato sofrido de sair de sua casa (que é uma tubulação de esgoto, contendo uma minúscula abertura em forma de quadrado) todos os dias pela manhã faz de Mirvais o próprio potrinho.

Como Mirvais é sozinho na vida, quando encontra alguém que precisa dele, rapidamente inverte a situação, passando a ser ele quem precisa desesperadamente do “patrãozinho” sádico e opressor, aguentando tudo até esbarrar com a desumanização completa, o que o faz cair na real. Por fim, seu orgulho o redime.

As cenas de Cavalo de Duas Pernas são chocantes e duras, e o mais difícil é ver que os destratos são cometidos em frente a outras crianças, ao professor da escola e mesmo ao adulto responsável pela tutela do “patrãozinho” enquanto seu pai está viajando, e que todos entendem aquilo como normal. O “patrãozinho” não sente remorso algum, pois o dinheiro e a posição social de seu pai lhe dão o direito de agir assim.

FICHAS TÉCNICAS:

Título original: Je suis le seigneur du château
Diretor: Régis Wargnier
Duração: 88 min.
Ano: 1989
País: França
Gênero: Drama

Titulo Original: Asbe du-pa
Diretor: Samira Makhmalbaf
Duração: 101min
Ano: 2008
País: Afeganistão
Gênero: Drama

A esperança está em Pandora

Planejar o lançamento de um filme que coloca como foco central a questão ecológica para coincidir com a Conferência sobre Mudanças Climáticas, a COP-15, ocorrida no mês de dezembro, em Copenhagen, na Dinamarca, foi uma estratégia brilhante de James Cameron. A COP-15 mais embromou do que decidiu. Já Avatar mandou o recado de forma direta: a natureza sempre estará além da arrogância do ser humano.

Foram anos de estudos, provas, espera pelo top do top da alta tecnologia para que Cameron pudesse tornar Avatar um filme solidamente tridimensional. Demorou, mas ele o fez. Tomando como referência o ecossistema concebido por Hayao Miyazaki para o mangá Nausicaä, o conceito mitológico maia da Árvore da Vida/Árvore da Ceiba (conhecida no Brasil como Mafumeira, a maior árvore da floresta tropical), além de se auto citar (Aliens – o resgate), em Avatar (2009), temos a história de Jake Sully (Sam Worthington), um soldado paraplégico, cujo irmão gêmeo cientista estava envolvido com pesquisas relacionadas à lua Pandora. Quando o seu irmão é assassinado, ele recebe uma proposta para ir a Pandora e assumir o seu avatar, uma vez que ambos tem o mesmo genoma.

Ao aceitar a missão, Jake desconhece que terá que fazer jogo duplo, estando na equipe dos pesquisadores da Dra. Augustine (Sigourney Weaver), criadora do projetoAvatar (que mescla DNA humano e Na´vi para confeccionar um ser híbrido, possibilitando que os humanos interajam com os nativos de Pandora, apreendendo sua cultura), mas precisando relatar tudo para os militares, que são mercenários interessados em conseguir o valioso minério Unobtanium. Os Na´vi, habitantes e guardiões de Pandora, sabem que os humanos, a quem chamam de “O Povo do Céu”, querem somente se aproveitar dos recursos de sua lua e se rebelam contra eles, até que o avatar de Jake fica perdido na floresta e é salvo por Neytiri (Zoe Saldana), que recebe a missão de instruí-lo a ser um guerreiro Na´vi. Jake encanta-se com o novo mundo que descobre e torna-se uma peça-chave da guerra entre os humanos e suas incríveis máquinas de matar contra os defensores da vida em toda a sua plenitude.

Jake Sully (quase “silly”, bobo, em inglês) representa a nós, os espectadores, totalmente ingênuo, “podado”, sem conhecimento técnico apropriado e que cai literalmente numa floresta bioluminescente, habitada por um povo azul, que também brilha no escuro, cuja relação com o meio ambiente é intensa. É o ser humano perdido, achando que precisa combater e tirar proveito do que se mostra inferior a ele, menosprezando a sapiência e as energias da natureza. À medida que ele vai se inteirando da relação simbiótica existente entre os Na´vi e a flora e a fauna de Pandora, compreende que as partes formam um todo, entrando em equilíbrio por confluir todas as energias em Eywa, a principal entidade que rege a vida naquela lua. Jake começa a sentir essa energia também e de inimigo número um, passa a ser a última esperança dos Na´vi. Porém, como fazê-los acreditar em suas palavras outrora traiçoeiras? A solução escolhida por ele foi recorrer ao mito, o que nos mostra o seu amadurecimento e compreensão da nova sociedade à qual deseja pertencer.

Minha crítica é dirigida à Hollywood por optar, mais uma vez, por um salvador externo, como se os povos autóctones tivessem a necessidade de um guia para mostrá-los o caminho, tal como Mickey Mouse, que chega num país distante e sempre sai com uma parte da riqueza dos habitantes da região porque desvendou um simples caso, complicado demais para as mentes “não-civilizadas”.

James Cameron é um trovador contemporâneo a serviço da tecnologia, criando um mundo próprio, com língua, gestos, códigos de conduta, rituais, vestuário, ornamentos e armas tal qual Tolkien fez em O Senhor dos Aneis, tanto que podemos tomar os Na´vi como uma variação dos elfos.

Embora Avatar seja um filme de forte apelo visual – no qual somos arrebatados por imagens pra lá de surreais, como as Montanhas Aleluia (incríveis rochedos suspensos no ar), uma flora e fauna exóticas (fundindo animais das eras mesozoica e cenozoica com uma mistura high tech e multicolorida de mamíferos e aves atuais), e um lindo balé dos Na´vi, remando ondas de energia ao som da trilha de James Horner e de I See You, canção composta exclusivamente para o filme e interpretada por Leona Lewis –, a mensagem final é atual e necessária: na guerra da tecnologia contra a natureza, vencerá quem não subestimar o adversário.

FICHA TÉCNICA:

Título original: Avatar

Ano: 2009

Diretor: James Cameron

País: EUA

Duração: 166 minutos

Gênero: aventura

Amigos de chocolate e leite condensado

Mary.and.Max.2009Uma criança diferente dos padrões ditos normais é encarada pela sociedade como um problema. E se a criança for tímida e sensível, usar óculos, tiver uma marca de nascença na testa, olhos da cor de poças de lama e uma mãe alcoólatra que furta bebida e comida dos supermercados, mais difícil ainda será evitar a zombaria das outras crianças na escola. E tudo o que uma criança vítima de bulling quer é ter um amigo de verdade, mesmo que esse amigo more a milhares de quilômetros de sua casa.

A animação australiana Mary and Max (2009), dirigida pelo experiente Adam Elliot, trata do tema da rejeição social de forma terna e madura, aproximando uma menina de oito anos de idade e um ateu judeu com Síndrome de Asperger. A menina é Mary Daisy Dinkle (dublada por Toni Collette), que mora em Melbourne, na Austrália, e o judeu é Max Jerry Horowitz (dublado por Philip Seymour Hoffman), que vive em Nova York.

A única pessoa com quem a pequena e sonhadora Mary dialoga é o seu avô Ralph, que ao falecer torna a vida da meninamary-and-max-7deveras solitária, tanto que seus amigos são bonequinhos feitos por ela, com ossos de galinha e conchas. Como passatempo predileto, Mary assiste aos Noblets, na TV, e os coleciona, mas também se diverte comendo leite condensado e chocolate. Tudo transcorria aborrecidamente cinza para Mary, até que ela tem a ideia de pegar a lista telefônica e escolher um nome de um desconhecido para lhe escrever uma carta. Esse desconhecido é Max, um obeso aspie judeu, mas que se diz ateu, que tem como companhia um papagaio, um gato sarnento e um peixinho dourado, além de um amigo imaginário, o Sr.Alfonso Ravioli. Max trabalha numa fábrica de camisinhas, adora cachorro-quente de chocolate e tem uma vizinha parcialmente cega que lhe prepara sopas. Ao receber a carta de Mary, fica feliz em saber que eles tem gostos em comum e que, enfim, pode ter alguém pra chamar de amigo.

maxjerryhorowitzMax revela a Mary que também era perseguido e intimidado pelos outros meninos na escola, e lhe ensina formas bacanas de responder às crianças que implicam com sua aparência. São inúmeras as missivas trocadas entre eles, ao longo dos anos, algumas lidas com certa apreensão por Max, pois as dúvidas de Mary são complicadas para a sua singular forma de pensar, causando-lhe crises de ansiedade.

Adam Elliot narra uma história trágica, com leves toques de comédia, abordando de forma sincera e delicada as nuances comportamentais de quem tem a Síndrome de Asperger, um transtorno autista diagnosticado apenas em 1994, cujas principais características são a dificuldade de interação social, a falta de habilidade para entender e demonstrar emoções, o desenvolvimento de padrões comportamentais ritualísticos e a primazia por um padrão racional/lógico de enxergar o mundo.

mary_and_maxA animação é toda feita com claymation em tons de cinza, com destaque apenas para as cores vermelha e marrom, e foi selecionada para a noite de abertura oficial do Festival de Sundance desse ano, ganhando prêmios importantes, como O Grande Cristal do Festival de Animação de Annecy, o Grande Prêmio do Festival de Animação de Stuttgart e Melhor roteiro do Prêmio Literário de Queensland.

A amizade de Mary and Max me fez lembrar de um antigo sucesso do grupo infantil Balão Mágico, chamado É tão lindo, uma letra que fala sobre como é legal aceitar e gostar de alguém pelo que esse alguém é, sem se importar com julgamentos estéticos ou de crença ou de valor, embora seja muito difícil explicar aos outros que isso é tão lindo.

FICHA TÉCNICA:

Título original: Mary and Max

Ano: 2009

Diretor: Adam Elliot

País: Austrália

Duração: 92 min.

Gênero: animação dramática

Em busca da vida perdida

Mancora325Retomar temáticas já batidas, imprimindo um olhar novo sobre elas, talvez seja o caminho mais trilhado pelo cinema do século XXI. O clichê do playboy que não dá a mínima pra nada até que algo marcante aconteça em sua vida e o faça repensar toda ela é mais do que banal, mas em Máncora (2008), o cineasta peruano Ricardo de Montreuil o recontou de forma peculiar, mostrando as insatisfações de três jovens completamente perdidos que viajam para um lugar querido da sua infância, esperando encontrar um porto seguro. Mal sabem eles que para ter um chão firme pra pisar, o mundo de cada um precisa desabar.

Santiago Pautrat (Jason Day) é filho de um antigo famoso cantor de baladas populares, que não suportando o fracasso profissional e pessoal, suicida-se. A partir daí, Santiago, um jovem irresponsável, egoísta e de pavio curto, terá que lidar com sua condição de órfão, buscando uma forma de se reencontrar consigo mesmo e saber o que irá fazer daquele momento em diante. Quando está totalmente perdido, Santigo recebe um telefonema de sua meia-irmã, Ximena (Elsa Pataky), dizendo que está chegando a Lima, acompanhada de seu marido, Iñigo (Enrique Muciano).

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Ao cruzarem os olhares no aeroporto, Santigo e Ximena já demonstram que há um sentimento muito forte que os une. Durante o jantar, todo o gestual de Ximena indica que ela quer algo mais do que reencontrar o meio-irmão, e Iñigo percebe isso.

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Em meio às lembranças de suas férias de infância e adolescência, passadas na praia de Máncora, Santigo anuncia que já tinha feito planos de ir pra lá e que Ximena e Iñigo podem ficar em sua casa, o que Ximena de pronto rejeita. Então, os três partem de carro até Máncora. Numa das paradas no caminho, encontram um surfista brasileiro, Batú (Phellipe Haagensen), e lhe dão carona. Batú lhes oferece maconha e fala sobre o Ayahuasca e de como esse chá evoca os demônios de cada um, purificando quem o bebe. Iñigo, que é um jovem muito rico, cujo interesse maior é curtir a vida adoidado, fica animado em experimentar o Ayahuasca, tendo como meta encontrar o xamã que Batú mencionou.

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Chegando a Máncora, os jovens vão se envolver em situações que lhes porão à prova a forma como tem vivido até então. As incertezas, inseguranças e tabus vão sendo superados. O desejo latente e impulsivo predomina. E as conseqüências do agir sem pensar são amargas. Iñigo percebe que o dinheiro não pode comprar o amor e a paz de espírito, Ximena descobre que fugiu tanto da vida, escondendo-se atrás da plasticidade das fotos que tirava, que precisa estar com alguém que compartilhe suas angústias interiores e viva com ela uma vida real, sem máscaras e subterfúgios escapistas. E Santiago precisa apanhar fisicamente para gritar a dor que lhe corroia a alma e assim poder finalmente crescer:

Há golpes na vida tão fortes…
Eu não sei!”

“São poucos, mas existem.
Abrem valas escuras
no rosto mais feroz
e no dorso mais forte.

Talvez sejam os cavalos
de Átila, o bárbaro…
ou os arautos negros
que nos enviam à morte.

Há golpes na vida tão fortes…
que eu não sei!”
(…)
“Se antes de cada ação
pudéssemos prever
todas as suas consequências,
tenho certeza que
pensaríamos melhor.

Talvez os outros não tenham,
necessariamente, sido o problema.

Pelo contrário, talvez o problema
sempre tenha sido eu.

Quais tem sido meus sonhos?

Tive que chegar ao fundo do poço
para entender que quem estava em dívida era eu.”

Em seu segundo média-metragem, que concorreu ao Prêmio do Grande Júri do Festival de Sundance, Ricardo de Montreuil faz um road movie intimista, mas ao mesmo tempo festivo e esperançoso. A antítese se estende ao longo do filme, trazendo belos cenários, com o mar ao fundo, que contrastam com as almas obscuras dos três personagens, por isso a opção por um grande número de planos e espaços fechados (boite, apartamento, carro, casa de praia), intercalando a luminosidade das cenas, que ora são bem escuras, ora em meia-luz e ora bastante claras.

Mergulhar nas águas celestes de Máncora é altamente recomendado.

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Título original: Máncora

Diretor: Ricardo de Montreuil

Duração: 100 minutos

Gênero: Drama

Ano de Lançamento: 2008

País de Origem: Peru