Arquivo mensais:novembro 2013

A Gangue de Hollywood

A Gangue de Hollywood

O mais recente filme de Sofia Coppola, The Bling Ring, remeteu-me imediatamente a uma canção de Kanye West (rapper presente na trilha, por sinal): “toda bolsa, toda blusa, todo bracelete/ Vem com uma etiqueta de preço, lide com isso”. Na verdade, parafraseando Kanye, o verso ficaria melhor com um “vem com uma etiqueta com marca”. O filme se resumiria bem nisso: é o retrato de uma sociedade entorpecida por etiquetas e nomes famosos, que emprestam valor às etiquetas, e as celebridades que, sendo usadas nesse complexo mecanismo, emprestam desejo às etiquetas, bolsas, braceletes.

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As personagens de The Bling Ring não estudam, não trabalham, não produzem valor. Elas se produzem, desfilam, idolatram, e são admiradas. Fazem girar a roda do consumo americano, numa proporção infinitamente superior àquela a que estamos acostumados em terras ao sul do Equador (se não estivermos falando do consumo de luxo em pequena escala).

O filme se resume nisso. Mostrar um nicho de vida e tentar justificar, com base nesse retrato, roubos cometidos por uma turma de adolescentes em nome das etiquetas e em função do buraco na segurança das casa das celebridades. Era simples. Casas abertas, itens de vestuário transbordando das gavetas. As meninas e meninos perceberam que poderiam entrar despercebidos e levar o que quisessem.

A diretora Sofia Coppola já havia paquerado o tema – o entorpecimento diante da fama e superexposição – no anterior Um Lugar Qualquer, mas neste The Blig Ring o tom de deboche é escancarado. As entrevistas com os protagonistas dos crimes, que intercalam toda a ação, dão um tom documental ao filme. E atuam não com o objetivo de justificá-los, mas de zombar das intenções patéticas dos personagens. E paradoxalmente, tentando não justificar, Sofia acaba o fazendo. O que se passa na mente do espectador pode ser algo do tipo: como é que gente que é tão estimulada cotidianamente – pela TV, pelos amigos e até pelos pais – a adorar etiquetas, marcas e celebridades, vai escapar de ter um destino tão medíocre?

É interessante, ao final, notar como a ironia da diretora se volta contra ela própria. Afinal de contas, não é essa Sofia um produto daquele meio, filha de um diretor de cinema riquíssimo e uma referência para tendências de moda? Basta lembramos que ela tem uma bolsa Louis Vuitton com o seu nome (ou será uma bolsa Prada?).  A Gangue de Hollywood

A Hora e a Vez de Serra Pelada

Respeito profundamente diretores que dão a cara (e o bolso) a tapa e se metem a fazer filmes que muitos não quiseram fazer e que acabam se tornando genuinamente nacionais – não só com cenários e atores brazucas, mas que contem histórias que fazem parte do nosso imaginário. No entanto, depois de assistir ao início de Serra Pelada, de Heitor Dhalia, que se passa no mítico garimpo do Pará, algo na direção muito redondinha me incomodou muito.

Explico: as tomadas aéreas que abrem o filme, e o off do personagem de Júlio Andrade (Joaquim) esclarecendo passagens históricas, enquadram o longa em algo ultrapassado do nosso cinema – apesar de Xingu ter usado os mesmos artifícios há pouco mais de um ano. Em À Deriva, filme brasileiro anterior de Dhalia (ele ainda dirigiu nesse meio tempo 12 Horas, para um grande estúdio americano), conteúdo e forma casam de maneira que a direção se destaca. O filme é solar para uma narradora desabrochando na adolescência; tenso para uma atmosfera de descobertas. Se considerarmos ainda Nina, seu primeiro longa, o efeito é potencializado.

Penso que Heitor Dhalia se notabiliza por ser um esteta – e adoro isso. Foi por isso que senti faltar ousadia na direção de Serra Pelada. É um filme seguro, não arrisca nas tomadas e na fotografia (a não ser quanto à criatividade em terreno de dificuldade: como não foi possível filmar no garimpo que de fato existiu, fez-se uma mistura de cenas de arquivo de TV com imagens rodadas numa pedreira no interior de São Paulo).

Serra_peladaMas o que se perde em direção, ganha-se no roteiro. O suspense é entrecortado com um drama pessoal, com personagens com os quais podemos perfeitamente nos identificar; e a comédia dá a graça de um jeito fino, que soa como o oposto do que se tem visto atualmente (em cópias brasileiras dos pastelões americanos). Vera Egito, que escreveu o filme ao lado do diretor e marido, deixou neste filme muitas características do que já fez.

A música de Antônio Pinto cai perfeitamente bem nas tomadas de prostitutas, tiroteios, e até na fossa de Juliano – uma das melhores cenas do cinema nos últimos tempos, por sinal. A trilha é uma mistura de forró, carimbó e tecnobrega que escancara o Pará.

Serra_Pelada_atoresRoteiro, música, e atores se mostrando em suas melhores condições. Por conta do atraso nas filmagens, Wagner Moura não pôde fazer um dos protagonistas, e o papel ficou para Juliano Cazarré. Moura já disse que Juliano trouxe um perfil que ele não daria ao personagem. E tem razão. Cazarré está estupendo, e tem o nome do personagem não por acaso: tornou-se o Juliano. A ponta de Wagner Moura como Lindo Rico é uma delícia e até Sophie Charlotte se mostra muito mais entregue ao papel do que em qualquer coisa que tenha feito em novelas.

No fim, talvez tenha compreendido melhor a ideia de se fazer o filme desse jeito com a seguinte declaração: “O Brasil mudou muito de feição em 30 anos. Mas ali tem o fundamento do que o Brasil é hoje”, disse Dhalia, em entrevista para a TV. Para contar essa história mítica, o cineasta preferiu não ousar tanto esteticamente. Mas o Brasil também evoluiu muito em termos estéticos em 30 anos.

Há a tentativa, sim, de fazer um filme histórico. De fazer uma superprodução. Mas o resultado, ao fim, é um belo filme de equipe. Sem o frescor de À Deriva, mas com a força de um registro nacional fora de série.