Arquivo mensais:abril 2013

Shame-poster

Nova York em três tempos

A conexão veio por acaso. A profusão de arranha-céus de Manhattan estava em três, dos últimos filmes que vi recentemente. Em preto-e-branco, para Billy Wilder e Woody Allen. E num azul soturno para Steve McQueen. Porque a cidade que está perto de abrigar 10 milhões de habitantes nunca esteve tão só. Com um intervalo de 20 anos entre o primeiro e o segundo filme –  Se Meu Apartamento Falasse, de 1959 e Manhattan, de 79 – e de pouco mais de 30 deste para o terceiro – Shame, de 2011, a evolução que se observa poderia caber em quaisquer outras metrópoles. Mas é na cidade que nunca dorme, parafraseando Sinatra, que a maior indústria cinematográfica do mundo se inspira, e é por meio dela que se expressa.

The Apartment (1960)

Se Meu Apartamento Falasse é uma comédia, daquelas aparentemente sem pretensão de Billy Wilder. Só aparentemente. O que se vê ali é uma caracterização bem humorada da tentativa de se encaixar em novos modos de vida no pós-guerra, com escritórios assépticos, competição no mercado de trabalho e uma crescente liberdade sexual feminina. O individualismo extremo, no entanto, é caricaturado de forma inteligente. O personagem de Jack Lemmon é proibido de voltar cedo para casa porque empresta com frequência o apartamento para encontros fortuitos de seus superiores na empresa. Apesar do humor – ou, na verdade, facilitando a compreensão pelo risível – Wilder mostrou que nem só de lucros vive a pós-modernidade. Numa época de consumo hiper estimulado, mulheres são consumidas com desprendimento em um apartamento em Manhattan.

Woody Allen, como é de costume, é mais explícito. Seu alterego em Manhattan, Issac, luta para que a ex-mulher não publique um livro contando detalhes da separação e se alterna entre o desejo e a auto-repressão em um relacionamento com uma atriz de 17 anos. Isaac tem colhão para se livrar da produção de um programa de TV que apela para o ridículo, mas aManhattan grande questão de sua vida é o amor. Ou a dificuldade de vivê-lo. Entre as idas e vindas do relacionamento entre o melhor amigo e a amante, no qual ele acaba se inserindo, Isaac quebra a cara. E Allen termina por nos fazer observar que a ingenuidade dos primeiros anos de vida amorosa é o único remédio para o cinismo da decepção com os relacionamentos.

Para Brandon, o protagonista de Shame, essa faísca de conexão não existe mais. Apesar de focado não só em dificuldades nas relações, mas em uma doença (o vício em sexo), o roteiro do filme é sintomático da fragilidade de laços da nossa vida contemporânea. A primeira, e mais brutalmente retratada, concerne à impossibilidade do personagem de Michael Fassbender de obter prazer em uma relação prosaiShameca. A segunda, introduzida com a entrada de sua irmã (Carey Mulligan, em brilhante papel), é sugerida pela personalidade dependente de Sissy, pela relação travada que tem com o irmão e pela insinuação de que as ligações familiares resultaram em seus fracassos.

Famílias disfuncionais e casamentos errados não eram uma novidade nos tempos das comédias de Billy Wilder. O que se observa – não com insatisfação – é que o tormento com a solidão e a incomunicabilidade pós-modernas estão de novo na pauta do cinema. Precisamos Falar sobre Kevin, Aqui é o Meu Lugar, A Separação, Shame. Dá para se ter uma noção disso revisistando uma pequena lista de filmes lançados por aqui no ano passado. E não é necessário, como eu disse no início do texto, estar em Nova York para sentir ou falar disso. Mas a simbologia de uma cidade que nunca dorme e na qual as pessoas pouco se conectam entre si, esboçada em Shame, é extremamente adequada.

César em cena

César Deve Morrer

Que Shakespeare dá sempre um bom caldo é quase uma noção coletiva. Do Hamlet dos Clowns de Shakespeare aqui em Natal ao Muito Barulho Por Nada de Kenneth Branagh, não vi, até hoje, autor que tenha conseguido estragar texto do dramaturgo inglês. Os italianos Paolo e Vittorio Taviani, no entanto, propuseram algo que foi além da mera versão: transformaram em filme o processo de construção e ensaio de um Shakespeare encenado em uma prisão nos arredores de Roma, na Itália. Da experiência, surgiu César Deve Morrer.

O exercício é mérito do professor Fabio Cavalli, italiano que há anos se dedica a ensinar teatro a trambiqueiros, mafiosos e homicidas encarcerados em Rebbibia. Na empreitada que foi levada ao cinema, montou-se Júlio César, peça de Shakespeare escrita há mais de 400 anos, em que se desenlaçam as artimanhas e conspirações que redundaram no assassinato do rei que dá nome à peça.

Digo que os Taviani foram além porque é raro uma plateia ter a oportunidade de observar, mesmo que pelo filtro do olhar do cineasta, processos como de identificação e rejeição dos personagens no curso de uma montagem teatral. O impacto causado pelas ações de Brutus, Cássio e seus colegas nos detentos de Roma é desconcertante. Além disso, a sensação de claustrofobia causada pelos muros altos, grades e pesados portões de ferro contribui para que personagens e seu público voltem àquela Roma da peça, efeito que os Taviani acentuaram com a fotografia em preto e branco utilizada na maior parte das cenas. cena-do-filme-cesar-deve-morrer-dirigido-pelos-irmaos-paolo-e-vittorio-taviani-o-longa-mostra-um-grupo-de-prisioneiros-que-treinam-para-poder-encenar-publicamente-a-peca-julio-cesar-de-1361903513039_956x500

Mas o que de fato comove, neste trabalho genial – se partirmos do pressuposto de que a ideia é muito simples – é a observação de um mundo para o qual normalmente não queremos olhar, impregnado de um passado sujo e muitas vezes sem perdão. Ver aqueles presidiários tentarem, sem jeito, um papel na peça, e se dedicarem de forma obsessiva a personagens não tão distantes é um conforto, por dois motivos: vemos uma outra face de suas personas, aquela não exibida diante dos carcereiros e juízes; e temos a certeza, mais uma vez, de que o aprendizado por meio da arte é muitas vezes mais eficaz que anos de castigo ou sala de aula.

Fazendo filmes há quase 60 anos, Paolo e Vittorio Taviani fazem parte da mesma cepa do cinema italiano que produziu diretores como Bernardo Bertolucci, Ettore Scola e Marco Bellocchio. Geração que mesmo não tendo aderido ao rigor estético do neo realismo, produziu dramas existenciais e de crítica política. Assistir a César Deve Morrer e Indomável Sonhadora dentro de um período tão curto me fez pensar na experiência neo realista. Em tempos de realidades tão maquiadas e comercializadas, o cinema se volta, novamente, para a crueza da vida?