Arquivo mensais:fevereiro 2013

Beasts of the southern Wild

Candidatos ao Oscar – parte III

A cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já é hoje (24), e ontem finalmente terminei de assistir a todos os candidatos ao Oscar de melhor filme. Tive boas surpresas, pois pensava que acharia Os Miseráveis chatíssimo e não tinha nenhuma expectativa com relação a Indomável Sonhadora – que se revelou meu franco favorito! Vamos aos três últimos concorrentes da categoria melhor filme:

Django Livre (Django Unchained, dir. Quentin Tarantino)

Tarantino conseguiu superar Bastardos Inglórios em ironia e horror com Django Livre. Tratando do Djangomesmo tema – a vingança de um povo oprimido contra o opressor – desta vez o cineasta ficou em casa, trazendo para a premissa um escravo liberto antes da Guerra de Secessão americana que ajuda um caçador de recompensas (personagem do sensacional Christoph Waltz) a identificar três capatazes, e que depois será auxiliado na busca por sua mulher, também escrava.

O roteiro é inventivo, a trilha sonora é magnífica – com temas de Ennio Morricone e Luis Bacalov, responsável pela trilha do primeiro Django, de 1966 – e a direção de arte nos dá a exata noção do quanto Tarantino não é mais aquele diretor independente que não tinha recursos dos primeiros filmes. Mas algo me fez murchar e foi justamente a percepção de que Tarantino hoje pode muito e abusou disso. A partir do momento em que ele aparece no filme (é só uma ponta, mas marquei esse instante), a conclusão fica sendo postergada e muitas cenas dispensáveis entram numa hora em que, em minha opinião, a plateia já está cansada de tanta matança. Afinal de contas, são 2h40 de projeção! O filme vale, no entanto, por tudo o que já mencionei e pelas atuações: nunca vi Leo di Caprio tão bem, Samuel L Jackson tão afiado e Christoph Waltz tão hábil em conquistar a atenção logo no início da jornada.

Os Miseráveis (Les Misérables, dir. Tom Hooper)

Les MisérablesDepois de ler as críticas do Barcinski e do José Geraldo Couto eu estava bem desanimada quanto a Os Miseráveis. Mas foi importante entender, lendo o segundo, que o filme foi feito tomando por base a versão teatral musical de Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, e não o romance de Victor Hugo. O filme parece, deveras, uma peça filmada. No entanto, não deixa de ser bem feito, bem cantado e – o que eu considero ser seu objetivo – emocionante.

Não gosto de musicais e Os Miseráveis abusa do conceito. Praticamente todas as falas são cantadas. Mas a produção foi competente em dar aos cenários a ambientação necessária para sugerir os tempos sombrios em que se vivia, e as canções adicionam à obra toda uma carga dramática extra à narrativa de Victor Hugo. O empenho musical dos atores é, aliás, o que mais chama a atenção: tudo foi cantado ao vivo no set, sem playback, e a cena da canção do desabafo de Fantine (Anne Hathaway, indicada ao prêmio de atriz coadjuvante) é uma das mais belas da história dos musicais no cinema. Apesar disso, não acho que seja um filme que mereça o prêmio principal pelo simples fato de não ser uma construção genuinamente cinematográfica, mas apenas a transposição para as telas de uma peça.

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, dir. Benh Zeitlin)

Este sim é, em minha opinião, um exemplo de inovação fílmica. Não historicamente, mas enquanto produto no contexto do que se tem feito nos últimos anos no cinema norteamericano. Indomável Sonhadora é a estreia em longas de um jovem diretor nova-iorquino e mostra, do ponto de vista Beasts of the southern Wild posterde uma menina de seis anos, a vida que ela leva ao lado do pai numa comunidade pobre do Sul dos Estados Unidos inundada por uma tempestade.

O filme é original porque apesar de a narrativa trazer todas as fantasias e a afeição da menina com relação ao pai, que tem uma doença sobre a qual ela pouco entende, e à mãe, que fugiu quando ela era bebê e é evocada em seus momentos de solidão e medo, o quadro que se mostra não é maquiado nem tem resquícios de sonho. O retrato daquela vida é desolador. E o que mais surpreende é que, apesar do horror que se sente ao sermos confrontados com aquele cotidiano, o espectador se vê conquistado pelos personagens, tão selvagens, tão abandonados, e é tomado pelo desejo de uma vida que não seja, como diz a menina, “de aquário”.

Quvenzhané Wallis não foi indicada ao principal prêmio de atuação de graça. A presença da garota conduz o filme, e sua química com o ator que representa seu pai é responsável pelos melhores momentos do filme. Virou meu favorito. É uma pena, no entanto, que a Academia não goste muito de inovações formais.

zero-dark-thirty1

Candidatos ao Oscar – parte II

Carnaval passou e a contagem regressiva para a grande festa da Academia está se aproximando do fim. Nos últimos dias vi dois filmes com agentes da CIA como protagonistas e um drama europeu difícil de digerir. Vamos a mais três indicados ao Oscar de melhor filme?

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, dir. Kathryn Bigelow)

Este para mim é um dos roteiros mais impressionantes entre os concorrentes na atual temporada de Zero Dark Thirtyprêmios de Hollywood. Zero Dark Thirty teve sua premissa extraída de uma reportagem de Mark Boal, jornalista/roteirista que também trabalhou com Kathryn Bigelow no premiado Guerra ao Terror. Boal conta aqui a extraordinária história de uma agente da CIA que, durante oito anos, perseguiu uma pista aparentemente sem importância obtida num interrogatório com um prisioneiro sob tortura, e que a levou, ao cabo, à casa onde estava escondido Osama Bin Laden. Vocês podem dizer: ok, esse tipo de filme feito pela Bigelow eu já vi. Mas não menosprezem A Hora Mais Escura. Fala de uma mulher teimosa e perseverante, e do quanto o mundo é feito mais por assessores/especialistas e menos por governantes no poder. A amenizada que a diretora dá na tortura praticada pela CIA é até tolerável. (Ao final, tenta nos convencer de que ela terminou com o governo Obama. Alguém acredita?)

Argo (Argo, dir. Ben Affleck)

Este filme está sendo responsável por uma das disputas mais peculiares do Oscar deste ano. Isso porque Argo foi indicado ao Oscar de melhor filme, e Ben Affleck ficou de fora das indicações de melhor direção, apesar de estar levando todos os prêmios dos sindicatos que reúnem votantes no Oscar – incluindo o de melhor diretor por seu próprio sindicato. Talvez presenciemos no dia 24 de fevereiro uma situação que só ocorreu três vezes na história da Academia: a de um vencedor na categoria de filme sequer ter sido indicado na categoria diretor. O Chico Fireman explica o imbróglio aqui.

ArgoMas e o filme? Trata-se da recriação de episódio que ocorreu em 1979/80, no Irã, quando funcionários da embaixada americana se tornaram reféns por revolucionários que queriam que os Estados Unidos devolvessem o xá Pahlevi, tirano que recebeu asilo em Nova York. Seis funcionários fogem do cerco e se instalam na casa do embaixador do Canadá. O trabalho do personagem de Affleck, o agente Tony Mendez, é retirar os 6 americanos vivos do Irã sem que sejam reconhecidos como os funcionários da embaixada. E aí entra uma tática surreal: eles criam a produção de um filme – que nunca será filmado – para ludibriar os iranianos e retirar os americanos como se fossem parte de uma equipe canadense. O episódio em si é curioso e o suspense que se cria em torno da resolução da história é sufocante, mas confesso que considero o primeiro filme dirigido por Affleck bem superior. Medo da Verdade (Gone, Baby, Gone) tem um roteiro intrincado e de resolução inovadora. E até seu segundo filme, Atração Perigosa (The Town), tem uma direção encorpada pela familiriadade com que Affleck tratou de problemas do próprio bairro onde foi criado. Talvez a Academia não esteja tão equivocada assim.

Amor (Amour, dir. Michael Haneke)

Amor é a zebra da categoria melhor filme, já que é um filme austro-franco-alemão, de um diretor difícil, e que normalmente seria indicado apenas ao prêmio de melhor filme estrangeiro – como de fato foi. Mas Amor tem feito uma carreira importante em grandes festivais, já que levou a Palma de Ouro em Cannes 2012, o prêmio de melhor filme no Bafta (o Oscar britânico) e prêmios de filme estrangeiro em Toronto e no Globo de Ouro.

É um filme pesado, que fala de um casal de idosos até então bastante ativos e que precisa lidar Amourcom todas as limitações que a mulher passa a vivenciar no cotidiano depois de ter um ataque cardíaco e começar a definhar em função da velhice. Um choque de realidade sobre o envelhecimento, mas ouso dizer que é só isso. Os americanos fizeram um filme tão reflexivo quanto este sobre o mesmo assunto – Longe Dela, de 2006 – e os argentinos um bem mais lírico – O Filho da Noiva, de 2001. É um longa sofrido, como todos os outros de Haneke, e muito me admira que Hollywood tenha decidido indicar este ao Oscar de melhor filme, e não A Fita Branca, outro exemplar do diretor indicado ao prêmio de filme estrangeiro, em 2010 (será que a idade média dos votantes da Academia diz algo sobre isso?).

Lincoln Poster

Candidatos ao Oscar – parte I

Todo ano é o mesmo roteiro. Começa com Sundance, passa por Berlim e termina em Cannes a temporada de prêmios que mais me agrada. Não escondo pra ninguém que gosto mesmo é daqueles filmes que muita gente considera chatos, com um ritmo e um tom diferentes e que nas locadoras – as que ainda sobrevivem – estão cadastrados como “de arte”. Filmes que fogem da fórmula e nos mostram como este mundo é diverso.

Mas não escondo também que acompanho com certa ansiedade a temporada que rola lá por Hollywood. Globos de Ouro, PGA, SAG, DAG, Oscars. Ansiedade provocada pela superexposição que esses prêmios recebem por parte da imprensa, claro, mas particularmente porque todo fevereiro é a mesma coisa: saem os indicados e geralmente os filmes mais elogiados do ano anterior ainda  não chegaram aos nossos cinemas. Este ano, como alguns dos filmes estão em cartaz em Natal, e como outros eu obterei por vias escusas (obrigada, Vítor!), resolvi fazer um apanhado do que andei vendo. A abordagem vai ser rápida, pra cobrir a maior gama possível, como os indicados a filme estrangeiro e documentário, mas espero que acompanhem!

As Aventuras de Pi (Life of Pi, dir. Ang Lee)

A história do garoto que vivia num zoológico na Índia, sofre um naufrágio com a família e sobrevive em um bote com uma zebra, uma hiena, um orangotango e um tigre Life of Pide bengala chamado Richard Parker, resgata uma narrativa há algum tempo relegada aos filmes infantis em Hollywood – a fábula. Ang Lee fez um filme de ação misturado com suspense e drama, mas o forte de As Aventuras de Pi são as simpáticas atuações de Irrfan Khan e Suraj Sharma e a condução da narrativa, que consegue nos fazer parar para ouvir uma história surreal (só aparentemente), com uma moral interessante. Foi indicado a 11 Oscars, incluindo melhor filme e melhor direção para Ang Lee. Eu fiquei achando que não é para tanto.

Lincoln (Lincoln, dir. Steven Spielberg)

As cenas iniciais de Lincoln não escondem: o filme toma partido, defendendo com todos os recursos de Spielberg já conhecidos – música pra chorar, discursos libertários recitados por um soldado negro e contraluzes nLincoln Postero rosto de Daniel Day-Lewis – os meios utilizados pelo então presidente norte-americano Abraham Lincoln para conseguir a aprovação da emenda que acabou com a escravidão nos Estados Unidos. Mas mais que dar uma aula de política ao mostrar todos os detalhes de uma longa negociação entre o Executivo e o Parlamento para a aprovação de uma emenda à Constituição (oi, Mensalão), o filme, apesar de cansativo para muitos, se revela na construção do protagonista. Construção elogiável não só pelo mérito de Daniel Day-Lewis (que relutou por sete anos a aceitar o convite de Spielberg por não se achar capaz para o papel) mas pelo intrigante roteiro de Tony Kushner (baseado em biografia de Doris Kearns Goodwin) que deixa apenas rastros de uma personalidade ambígua para que o espectador junte os pontos. Indicado a 12 Oscars.

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, dir. David O. Russell)

Silver Linings Playbook é o “bonitinho” do Oscar. Apesar de tangenciar, com coragemSilver Linings Cartaz, a causa dos transtornos de comportamento que andam tão na moda (bipolar, ansiedade), o filme é uma bela reinvenção dos dramas românticos com os queridinhos atuais da América. Seu forte, no entanto, é a comédia, que dá à obra os momentos mais memoráveis e os personagens mais interessantes. Robert de Niro, como o pai do protagonista, é um caso à parte. Apesar de repetir um papel que tem feito à exaustão, o do pai controlador e neurótico, sua atuação parece conduzir todo o elenco nas cenas coletivas de humor. Faz rir e chorar, e foi indicado a 8 Oscars (incluindo o de melhor ator coadjuvante para de Niro, lembrado depois de 21 anos sem indicações).

Marisa_AmarÉSimples

Verdade, Uma Ilusão

Certa vez eu disse ao meu pai que Elis Regina não era cantora tão boa quanto Marisa Monte. Ele considerou aquela declaração um acinte. A bem da verdade, o que eu quis dizer, e na época não soube explicar com clareza, é que Elis não significa tanto para a minha geração quanto Marisa. Esta é a diva dos nossos tempos; aquela, a da geração dos meus pais. E isso sem entrar no mérito da capacidade vocal, dos métodos, ou da personalidade de cada uma das cantoras. Começo esse texto assim para deixar clara a minha escusa de fã: se escrevo esse texto agora, já dias depois de ter ido assistir ao show de Marisa no Teatro Guararapes, é para diminuir a influência que meu coração de admiradora tem na construção da minha crítica. Mas nós sabemos que essa é uma tarefa impossível.

20130118_224042

Verdade Uma Ilusão é a turnê iniciada em 2012 após o lançamento de O Que Você Quer Saber de Verdade, oitavo álbum de estúdio de Marisa Monte. Apesar das críticas negativas ao disco, o show é quase uma unanimidade (Armando Antenore, em reportagem da Bravo! de setembro passado, faz alusão a uma “uma parcela da crítica” para dizer que considera que a receita de Marisa desandou no disco mais recente, por flertar demais com o poularesco). A cantora investiu não só na estrutura sonora do show – além de uma pequena orquestra, as apresentações contam com os músicos Lúcio Maia, Pupillo e Alexandre Dengue, da Nação Zumbi – mas concebeu um espetáculo para os olhos do público. Obras criadas por 15 artistas brasileiros são projetadas em espelhos distribuídos pelo palco, nas laterais e acima da caixa de cena.

A surpresa provocada por cada conjunto de imagens, aliado às canções, embala o público, que vibra como se estivesse assistindo a um espetáculo de circo. As imagens urbanas de dia, em Gentileza, e à noite, em Tema de Amor, são a concretização elegante e elaborada da prática comum no youtube de fazer clipes adaptados para as canções. Mas os efeitos do vestido em Verdade, uma Ilusão e as holografias em Descalço no Parque são o ápice do casamento visual/sonoro proposto por Marisa Monte.

O show também é bastante competente no quesito abrangência. O set list vai fundo no repertório da cantora e resgata sucessos do início da carreira, como Eu Sei e Beija Eu. De quebra, ela conta histórias como a do princípio da parceria com Arnaldo Antunes, que vingou com o samba De Mais Ninguém, e de como ECT foi parar nas mãos de Cássia Eller (e do porquê de a própria Marisa nunca ter gravado a canção; a versão dela para o sucesso de Cássia, no entanto, ficou surpreendente). Há ainda a homenagem a Mina Mazzini e desastrada tentativa de fazer uma música com a cantora italiana, que terminou por “roubar” a melodia proposta por Marisa. A mágoa dela parece que ainda não passou, apesar de a melodia ter resultado em uma das mais belas canções de O Que Você Quer Saber de Verdade: Ainda Bem.

De tudo isso – e só para salvar a crítica de ser chapa branca – restou-me a sensação de que o espetáculo poderia ser um pouco menos correto. A diva carioca parece se esforçar para demonstrar curtir a apresentação. Em alguns instantes, no entanto, ela se descontrai, no gestual e na dança, e vibra com as mensagens otimistas que os críticos tanto execraram: “Solte os seus cabelos ao vento/ Não olhe pra trás/ Ouça o barulhinho que o tempo/ No seu peito faz/ Faça sua dor dançar”.

Duas coisas, no entanto, causaram-me as impressões mais duradouras dessa experiência. A primeira, a circunstância de que Verdade Uma Ilusão é uma turnê “auto-sustentável”, ou seja, não conta com patrocínios, e muito menos com lei de incentivo. Produzir um espetáculo dessa magnitude não é coisa fácil e é tarefa corajosa gerar lucro com cultura sem apoios oficiais no Brasil contemporâneo. A segunda coisa foi perceber o retorno do investimento nos rostos satisfeitos e inebriados dos meus colegas de plateia. Não é pouco emplacar um álbum no primeiro lugar do ranking de vendas em tempos de pirataria, e coisa ainda mais considerável é conseguir fazer cerca de mil pessoas pagarem quase metade de um salário mínimo para presenciar um espetáculo de 2 horas. Pessoas que vibram, cantam as canções e que provavelmente saem achando que foi o show mais bem pago de suas vidas.

 

* O Leonardo Ramires fez uma edição muito legal do show em Curitiba e postou no youtube. Vejam aí (e obrigada, Leonardo!!):
https://www.youtube.com/watch?v=uyZfYS3DNTA