Arquivo mensais:janeiro 2013

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O barulho e o silêncio de O Som ao Redor

Se existe algo de peculiar na trajetória de O Som ao Redor desde o seu lançamento nos cinemas no Brasil é o fato de que ele tem sido muito mais comentado do que visto. E mais que isso: pouco comentado entre quem realmente deveria – a classe média, que tem dinheiro pra ir ao cinema, contratar empregadas domésticas e vigias de rua. Distribuído em pouquíssimas capitais do país e sofrendo a forte concorrência de blockbusters americanos de férias e mesmo das comédias nacionais feitas com amplo patrocínio via leis de incentivo (a despeito de sua própria capacidade de se autofinanciar), seus produtores têm realizado um tour de fource na divulgação da obra em festivais e até no boca-a-boca das redes sociais, com o intuito de atrair para si a atenção que as distribuidoras não deram.

Trata-se de um filme também particular pelas circunstâncias de sua produção: rebento de um diretor tardio, o ex-crítico de cinema pernambucano Kléber Mendonça Filho, O Som ao Redor foi todo filmado em um bairro de classe média do Recife cujo perfil o diretor disseca com crueza constrangedora. Os atores receberam claras instruções para improvisar à vontade. E apesar de a princípio o roteiro parecer o retrato de um microcosmo regional, as nítidas referências a cenas emblemáticas da história cinematográfica mundial e o esmerado desenho de som com ênfase em ruídos urbanos tornam a obra tão universal que ninguém menos que o The New York Times a creditou como um dos 10 melhores filmes de 2012.

O Som ao Redor

E o que faz de O Som ao Redor um filme tão incensado pela crítica mas com um apelo tão tímido junto aos distribuidores? Seu enredo, sobre a chegada a uma rua do Recife de um grupo de prestadores de “segurança privada” (os nossos conhecidos vigias, sob uma roupagem mais bonitinha) – uma rua dominada por um típico“coronel” urbano, diga-se de passagem – não envolve grandes ações e muito menos o humor escrachado da nova geração de chanchadas nacionais. Não há, sequer, um grande evento que se sobreponha a todos os pequenos detalhes da vida cotidiana dos moradores daquela rua. Mas é o conjunto de situações, aliado a uma delicada rede de atuações, que faz do filme um panorama tão fiel da vida urbana atual do Brasil, que espanta.

Não considero que se trate de um novo Cidade de Deus, como li um crítico comparar, ao se referir ao paradigma que o filme de Fernando Meirelles criou, há 10 anos, ao retratar o microcosmo das favelas, até então só abordado pelo cinema pelo viés de Nelson Pereira dos Santos nos anos 50. O filme de Kléber Mendonça, ao expor as entranhas de um modo de vida assombrado pela violência e ao mesmo tempo explorador dos serviçais como nos tempos dos capatazes, vai fundo numa temática que é tão antiga quanto a nossa gente: a falta de limites nas relações de trabalho domésticas, que incluem os serviços de segurança, e o quanto o brasileiro, o “homem cordial”, impede que essa falta de limites exploda diariamente em conflitos.

E ao contrário do que se possa imaginar, o tratamento de um tema tão documental não tornou o filme um objeto seco e sem emoção. A carga de suspense de várias cenas, aliada ao lirismo de outras, tornam a obra de Kléber um filme que não só faz pensar, mas que também entretém. E aí eu repito o questionamento: por que O Som ao Redor tem sido tão elogiado pela crítica e no entanto tão pouco distribuído? Não posso ter a pretensão de dar uma única resposta a uma pergunta que serve para várias produções independentes nacionais realizadas nos últimos anos, mas tenho um palpite muito simples para uma das razões. Acho que a classe média, aquela que tem dinheiro pra ir ao cinema, contratar empregadas domésticas e vigias de rua, não está muito preparada para se ver de forma tão honesta na tela grande – e essa suposição já foi feita pelos grandes distribuidores, que preferiram garantir a renda mensal com as novas chanchadas e os blockbusters. Uma pena.

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A Grande Virada

Começo de ano é tempo de planos novinhos em folha, esperança, otimismo. Numa aparente contradição, começo 2013 – e a retomada deste espaço – com a sugestão de um filme a princípio duro e desesperançoso, mas com o tom crítico na medida do que eu gosto: A Grande Virada, com o astro Ben Affleck, que vem colecionando prêmios e críticas positivas com Argo, dirigido e protagonizado por ele. Mas a contradição é apenas aparente. No fundo, espero que para mim 2013 seja como o título do filme: o ano da grande virada.

Numa breve digressão, preciso trazer Mario Sergio Conti, que disse em reportagem recente da  piauí que na literatura brasileira contemporânea de maior alcance não há espaço para as classes dominantes. Citou Cidade de Deus, de Paulo Lins, e Pornopopéia, de Reinaldo Morais. Tirando as camadas superficiais agradáveis e românticas de A Grande Virada, primeiro longa de John Wells, essa conclusão talvez se adeque, guardadas as devidas proporções, ao cinema norte-americano contemporâneo. O bom cinema, aquele que se apega a algo mais que 120 minutos de pancadaria ou perseguição, não pode mais contar com as classes dominantes.
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Assim como Jason Reitman fez um ano antes com Amor sem Escalas, o tema de A Grande Virada é o desemprego como consequência da aterradora crise financeira de 2008. A despeito do impressionante desempenho como gerente de vendas, o personagem de Ben Affleck é demitido. Enfrenta a rotina de palestras motivacionais e distribuição de currículos com uma angústia e uma soberba de causar ao mesmo tempo pena e repulsa. A angústia cresce na mesma medida com que vão sendo demitidos os colegas de Affleck. E a repulsa, quando se para para refletir, tempos depois de terminada a exibição, que o tipo de trabalho a que essa gente se dedica não poderia gerar outra coisa senão a própria inutilidade de seus trabalhos.

Em um dos diálogos mais curiosos do filme, a personagem de Tommy Lee Jones explica como eram construídas as embarcações que levavam os primeiros carregamentos quando a empresa que demitiu Affleck começou. Apesar do que pode parecer, a explicação não é pontuada pela exaltação de heróis e trabalhadores que construíram o sonho americano. Ela é impregnada pela nostalgia pela época em que se tinha trabalho e ele era duro.Ben Affleck

Essa nostalgia está presente em reportagens, entrevistas com gente comum e talk shows americanos a que somos bombardeados todos os dias na TV brasileira. E é a fala de pessoas como nós, aquelas que se levantam, trabalham até 60 horas por semana e pagam financiamento da casa, que importa para o bom cinema americano contemporâneo.

Em A Grande Virada, essa gente aparece com um rostos bonitos e um estilo de vida repleto dos itens de consumo que os fizeram reféns dos altos salários que ganham. Não pagar o Porsche é pior que não pagar o financiamento da casa. Como eu já disse, essa história não é nova. Mas as atuações de Lee Jones e Chris Cooper, a crueza do retrato de um sonho americano que está ruindo, e a constatação de que a coisa só tende a ficar pior, tornam o filme necessário e envolvente. Não recomendável apenas caso você tenha gostado de Delírios de Consumo de Becky Bloom.