Arquivo mensais:setembro 2010

Dilemas da Adolescência

por Milena Azevedo

Filmes sobre adolescentes e os prazeres e amarguras dessa etapa da vida há aos montes, desde o terno Vidas sem rumo (1982) ao polêmico Kids (1995). No entanto, os filmes norte-americanos de adolescentes, em geral, não focam a relação de pais e filhos de forma tão presente quanto os latino-americanos. Como exemplo, temos o argentino Glue – uma história adolescente no meio do nada (2006), de Alexis dos Santos, e o brasileiro As melhores coisas do mundo (2010), da Laís Bodanzky.

Arrisco até a afirmar que As melhores coisas do mundo é um dos mais completos retratos sobre a adolescência atual, pois repagina os clichês do gênero e enfoca temas como a separação em decorrência da “saída do armário” do pai; os preconceitos e tabus que existem dentro do colégio; os espaços privados que se tornam públicos, ampliando a crueldade do bullying; a ingenuidade dos sentimentos intensos que leva à dramatização da dor; e um adolescente que vê tudo isso e precisa tocar os acordes certos para não desafinar.

Mano (Francisco Miguez) sonha em ser um guitarrista famoso, mas precisa estudar violão, enamora-se pela “piriguete” do colégio, não entende a decisão do seu pai e relata tudo o que lhe acontece à sua amiga Carol (Gabriela Rocha), que por sua vez caiu de amores pelo professor de Física (Caio Blat). Enquanto desmorona a relação de seu irmão, Pedro (Fiuk), com a namorada, Mano tenta ajudar a sua mãe (Denise Fraga) a tocar a vida e ainda tem que fazer média com seus amigos. Aos poucos Mano vai se dando conta de que as desilusões e decepções estão lhe abrindo as portas para o amadurecimento e a felicidade.

O sucesso de As melhores coisas do mundo, além da mão certeira da Laís Bodanzky, é o roteiro, assinado por Luis Bolognesi, que adaptou a série de livros “Mano”, de autoria de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, retratando de forma honesta a realidade da adolescência urbana de classe média brasileira.


Vencedor da 14ª edição do CinePE, As melhores coisas do mundo foi um dos filmes selecionados para a lista que indicará o concorrente brasileiro a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2011.

FICHA TÉCNICA

Direção: Laís Bodanzky

Ano: 2010

Nacionalidade: Brasileiro

Gênero: Drama

Duração: 104 minutos

III Curta Taquary

por Bernardo Luiz

O clima das serras de Taquaritinga do Norte (PE) proporcionou aconchego e tranquilidade para a realização do III Curta Taquary. O festival contou com os principais curtas-metragens do país, em uma mostra competitiva marcada pela grande presença do público e da cumplicidade entre os mais de 70 realizadores que participaram do evento.

O antigo cinema da cidade estava desativado; no entanto, a organização conseguiu o espaço para a realização do evento, proporcionando excelentes filmes para uma população carente de cultura cinematográfica.

Os diretores presentes eram cúmplices da união a favor do cinema. A troca de conhecimento, contatos, admiração entre si, colaboraram para que o evento fosse além de uma competição e sim um momento de comunhão e de apreciação. Alguns dos filmes premiados no Festival já eram conhecidos pelo circuito. O grande campeão foi Áurea (Zeca Ferreira – RJ) junto com O som do tempo (Petrus Cariry- CE). O primeiro relata a história da cantora Áurea Martins e o segundo é um documentário em que o grande diretor relata a questão do avanço da cidade diante a paciência e calma de uma senhora. No ano anterior, Petrus tinha levado vários prêmios no circuito nacional com o lindo filme A Montanha Mágica, e talvez seja um dos principais diretores dessa nova safra, principalmente por sua estética e simplicidade ao contar uma história.

Outro filme que não posso deixar de citar é o premiado A casa dos mortos (Débora Diniz – DF), que venceu como melhor roteiro. Esse documentário foi bastante premiado e conta as diversas histórias dos moradores de um manicômio judiciário em Salvador. A diretora conduziu seu filme de forma singular, sem julgamentos, deixando o público digerir tal realidade.

O prêmio do júri popular ficou com o mediano Caminhos de Santo Amaro (João Carvalho – PE). Este conta a histórias de peregrinos que saem de Recife – PE para Taquaritinga do Norte, como forma de devoção e fé ao santo padroeiro da cidade. O filme tem uma boa montagem e tecnicamente parece interessante, no entanto, o tom de reportagem impera, perdendo a dinâmica do cinema e se tornando algo bastante informativo.

O evento também premiou os produtores locais. A boa sátira Barone Jones 2 (Vanderson Barone – PE), proporcionou bons risos para a plateia que se divertia ao ver filmes como Indiana Jones e Matrix serem comicamente representados.

O festival também premiou animação e concedeu menção honrosa ao espetacular Recife frio (Kleber Mendonça – PE). Foi um grande evento, numa cidade acolhedora e com os novos representantes do cinema nacional. O Curta Taquary vem conseguindo marcar espaço no calendário cultural de Pernambuco e no circuito dos festivais de cinema.

Confira informações sobre o evento: http://curtataquary.com/resultados-do-curta-taquary-2010-2.html

Veja os premiados O som do tempo e A casa dos mortos.

*O ‘Gosto se Discute’ volta com a contribuição muito especial de Bernardo Luiz, estudante de Comunicação Social da UFRN e realizador já respeitado, com prêmios como o do EXPOCOM (Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação) Nacional, na categoria Cinema e Audiovisual, Modalidade Cinema de Não-Ficção, com o curta “Vivo”. Bernardo foi convidado pela produção do festival para ser um dos avaliadores do III Curta Taquary.