Arquivo mensais:novembro 2009

Em busca da vida perdida

Mancora325Retomar temáticas já batidas, imprimindo um olhar novo sobre elas, talvez seja o caminho mais trilhado pelo cinema do século XXI. O clichê do playboy que não dá a mínima pra nada até que algo marcante aconteça em sua vida e o faça repensar toda ela é mais do que banal, mas em Máncora (2008), o cineasta peruano Ricardo de Montreuil o recontou de forma peculiar, mostrando as insatisfações de três jovens completamente perdidos que viajam para um lugar querido da sua infância, esperando encontrar um porto seguro. Mal sabem eles que para ter um chão firme pra pisar, o mundo de cada um precisa desabar.

Santiago Pautrat (Jason Day) é filho de um antigo famoso cantor de baladas populares, que não suportando o fracasso profissional e pessoal, suicida-se. A partir daí, Santiago, um jovem irresponsável, egoísta e de pavio curto, terá que lidar com sua condição de órfão, buscando uma forma de se reencontrar consigo mesmo e saber o que irá fazer daquele momento em diante. Quando está totalmente perdido, Santigo recebe um telefonema de sua meia-irmã, Ximena (Elsa Pataky), dizendo que está chegando a Lima, acompanhada de seu marido, Iñigo (Enrique Muciano).

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Ao cruzarem os olhares no aeroporto, Santigo e Ximena já demonstram que há um sentimento muito forte que os une. Durante o jantar, todo o gestual de Ximena indica que ela quer algo mais do que reencontrar o meio-irmão, e Iñigo percebe isso.

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Em meio às lembranças de suas férias de infância e adolescência, passadas na praia de Máncora, Santigo anuncia que já tinha feito planos de ir pra lá e que Ximena e Iñigo podem ficar em sua casa, o que Ximena de pronto rejeita. Então, os três partem de carro até Máncora. Numa das paradas no caminho, encontram um surfista brasileiro, Batú (Phellipe Haagensen), e lhe dão carona. Batú lhes oferece maconha e fala sobre o Ayahuasca e de como esse chá evoca os demônios de cada um, purificando quem o bebe. Iñigo, que é um jovem muito rico, cujo interesse maior é curtir a vida adoidado, fica animado em experimentar o Ayahuasca, tendo como meta encontrar o xamã que Batú mencionou.

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Chegando a Máncora, os jovens vão se envolver em situações que lhes porão à prova a forma como tem vivido até então. As incertezas, inseguranças e tabus vão sendo superados. O desejo latente e impulsivo predomina. E as conseqüências do agir sem pensar são amargas. Iñigo percebe que o dinheiro não pode comprar o amor e a paz de espírito, Ximena descobre que fugiu tanto da vida, escondendo-se atrás da plasticidade das fotos que tirava, que precisa estar com alguém que compartilhe suas angústias interiores e viva com ela uma vida real, sem máscaras e subterfúgios escapistas. E Santiago precisa apanhar fisicamente para gritar a dor que lhe corroia a alma e assim poder finalmente crescer:

Há golpes na vida tão fortes…
Eu não sei!”

“São poucos, mas existem.
Abrem valas escuras
no rosto mais feroz
e no dorso mais forte.

Talvez sejam os cavalos
de Átila, o bárbaro…
ou os arautos negros
que nos enviam à morte.

Há golpes na vida tão fortes…
que eu não sei!”
(…)
“Se antes de cada ação
pudéssemos prever
todas as suas consequências,
tenho certeza que
pensaríamos melhor.

Talvez os outros não tenham,
necessariamente, sido o problema.

Pelo contrário, talvez o problema
sempre tenha sido eu.

Quais tem sido meus sonhos?

Tive que chegar ao fundo do poço
para entender que quem estava em dívida era eu.”

Em seu segundo média-metragem, que concorreu ao Prêmio do Grande Júri do Festival de Sundance, Ricardo de Montreuil faz um road movie intimista, mas ao mesmo tempo festivo e esperançoso. A antítese se estende ao longo do filme, trazendo belos cenários, com o mar ao fundo, que contrastam com as almas obscuras dos três personagens, por isso a opção por um grande número de planos e espaços fechados (boite, apartamento, carro, casa de praia), intercalando a luminosidade das cenas, que ora são bem escuras, ora em meia-luz e ora bastante claras.

Mergulhar nas águas celestes de Máncora é altamente recomendado.

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Título original: Máncora

Diretor: Ricardo de Montreuil

Duração: 100 minutos

Gênero: Drama

Ano de Lançamento: 2008

País de Origem: Peru

Longas da 33ª Mostra de Cinema de SP poderão ser vistos via Internet

A 33ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo vai exibir 24 longas na internet. Os filmes estarão disponíveis aos 300 primeiros acessos logo após a exibição do filme nos cinemas que integram o festival.

Os arquivos online são fruto de parceria da Mostra com The Auteurs, comunidade banda pela Costa Films, Criterion e Celluloid Dreams.

Confira os dias em que os filmes estarão disponíveis:

Sábado (24/10)
13 Minutos, de Felipe Briso, Gilberto Topczewski (Brasil)
Amor em Trânsito, de Lucas Blanco (Argentina)
BR3 (Ficção, de Evaldo Mocarzel
Tikimentary, de Duda Leite
Nós que Ainda Estamos Vivas, de Daniele Cini (Itália, Argentina)
Tudo que nos Cerca, Hashiguchi Ryosuke (Japão)
Seguindo em frente, de Hirokazu Kore-Eda (Japão)

Quarta-feira (28)
Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro (Brasil)

Domingo (25)
À Margem do Lixo, de Evaldo Mocarzel (Brasil)
Dentro da Leonera, de Nicolas Bénac e Cedric Robion (França)

Segunda-feira (26)
Cortejando Condi, Sebastian Doggart (EUA, Reino Unido)
Futebol Brasileiro, de Miki Kuretani e Tatiana Vilela (Japão, Brasil)
Kalandia, História de uma Fronteira, de Neta Efrony (Israel)

Terça-feira (27)
Momentos de Jerusalém, de vários diretores (Israel)
O Pequeno Indi, de Marc Recha (Espanha, França)

Quarta-feira (28)
A Cantora de Tango, de Diego Martinez Vignatti (Bélgica, Argentina, França, Holanda)
O Jogo do Pai, de Michael Glawogger (Alemanha, Áustria)

Quinta-feira (29)
Reidy, A Construção da Utopia, de Ana Maria Magalhães
Vencer, de Marco Bellocchio (Itália)

Sexta-feira (30)
Aquiles e a Tartaruga, de Takeshi Kitano (Japão)

Domingo (1/11)
Hugo Rei e sua Donzela, de Franco de Peña (Polônia, Venezuela)
O Cerco, de Toshi Fukiwara (Japão)

Segunda-feira (2/11)
Siri-Ará, de Rosemberg Cariry (Brasil)

Fonte: http://cinema.cineclick.uol.com.br

Bastardos Inglórios

Confesso que fui assistir Bastardos Inglórios com uma grande dose de desconfiança por um lado e de excitação por outro. A violência, às vezes com uma não-tão-estranha gratuidade, sempre me afastou da estética Tarantiniana. Se há uma coisa que valorizo acima de tudo na arte é a congruência de seus elementos. Explico: acredito que o todo congruente de uma obra se dá a partir do momento em que as partes se relacionam, entre si, de forma necessária. Se um elemento sequer for removido, a obra perde o sentido. Em Bastados Inglórios, senti, pela primeira vez, como nunca em Tarantino, não apenas a força da violência, mas sua necessidade, ao se relacionar com o resto da obra. Não há violência gratuita. A violência é uma espécie de elemental invocado a partir do sofrimento humano causado pelos nazistas.

Brad Pitt encarnando o sulista de sotaque tão forte quanto sua brutalidade, 'Aldo Raine'

Brad Pitt encarnando o sulista de sotaque tão forte quanto sua brutalidade, 'Aldo Raine'

Ela vai sendo dissipada durante todo o filme e a sensação que me tomou foi mudando. Logo em um primeiro momento, quando dos primeiros minutos do filme – os primeiros minutos do primeiro ‘capítulo’ (sim, o filme é dividido em capítulos), o nível de tensão é ajustado em um nível bastante alto. Se fosse comparar com um ruído, seria suficiente para estourar os tímpanos de qualquer cidadão. Nesta primeira cena, um camponês avista uma viatura da SS e ordena que sua família entre em casa. Um oficial alemão, Hans Landa (Christoph Waltz), busca judeus que possam estar se refugiando na França e vai até a residência de Perrier LaPadite. A longa conversa, a lentidão das palavras do oficial alemão, a formalidade. Tarantino demora, sabiamente, até nos mostrar que realmente aquele homem refugiava judeus. Tomadas no rosto do Monsieur LaPadite e do oficial Landa evidenciam um contraste: o sofrer e a ansiedade de um homem de carne e osso versus a calma e o sadismo de um psicopata. O diálogo quase-silencioso entre LaPadite e o oficial Landa é genial. A tensão aumenta ainda mais, pouco a pouco, com o desenrolar da cena. LaPadite, para proteger sua família, é levado a entregar os refugiados e o velho “estilo Tarantino” é reconhecido quando os soldados que acompanhavam o oficial atiram um número desmedido de balas através do chão, onde a família judia estava escondida. Os tiros contrastam com o quase silêncio do diálogo anterior. A força da cena e a veracidade demonstrada pela atuação de Waltz fazem com que toda a violência vista a partir dali seja desejada pelo público.

Christoph Waltz

Christoph Waltz

A ferramenta que o diretor usa para nos levar a verdadeiras ‘sensações orgásticas de vingança’ é o pelotão dos ‘Inglourious Basterds’, liderado pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt). O grupo executa toda sorte de crueldades contra os nazistas. Eles são a mão que Tarantino usa para, acima de tudo, e isto considero fato essencial para a compreensão completa do filme, fazer o público questionar sua própria moral. Para mim, foi impossível não me remeter à cena final de Dogville (onde nos questionamos porque nos sentimos tão bem com tamanha chacina), embora não seja tão explícito. Mas, de maneira semelhante, somos levados a nos questionar quanto a nossos valores: este ato de matar e torturar é repreensível e desumano, e mesmo assim sentimos um prazer imenso ao ver a brutalidade. Estamos sendo vingados. Somos levados um pouco mais próximo do Humano, mesmo que seja vergonhoso. Nietzsche questionou “quanto de verdade você pode suportar?”. Tarantino aperta em um botão dentro de nós. E é este o eixo. Ao reescrever a História, Tarantino pinta um quadro violento onde ao mesmo tempo sentimos prazer e nos questionamos quanto à ética desta fruição. Não posso falar mais pra não tornar isso num grande spoiler. Se ainda não assistiu, faça-o o mais rápido possível!