Arquivo mensais:outubro 2009

Apenas o Fim

Cartaz Apenas o FimVerborragia, cenários simples, pouco dinheiro, um diretor estreante. Há uma redução um tanto cômoda nessas palavras, é fato, mas elas descrevem bem a noção que se deve ter antes de decidir encarar Apenas o Fim, estreia na direção de Matheus Souza, estudante de cinema da PUC, num projeto da própria faculdade.

A premissa é fantasiosa mas não menos comovente: “eu vou embora de vez, você nunca mais vai me ver”, diz a garota ao namorado. E aí, nos próximos 80 minutos, eles discutem deus e o diabo, laranjas, cadarços e champagne. Parece monótono, mas não é.

O caminho escolhido por Matheus, além de não muito original, é bastante perigoso. Com habilidade para não soar intelectual demais, pendendo para Woody Allen (em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), nem romântico demais, mais ao estilo Richard Linklater (em Antes do Amanhecer), sua narrativa é uma despretensão pretensiosa, como queria Truffaut (em Beijos Proibidos)– que também era papo-cabeça e sensorial. Sabe aquelas besteiras que se fala quando se está apaixonado e descobrindo alguém? E as piadas que só são engraçadas a dois? É com essas bobagens e suas cenas inesquecíveis que o roteiro trabalha.

As referências, portanto, são bem óbvias. Reparem, contudo, que são todas estrangeiras. E aí o filme ganha uma nuance especial: cinema instrospectivo e verborrágico pouco se faz atualmente no Brasil. Exceção – também óbvia – feita a Domingos de Oliveira, o cineasta que, de tão obcecado pelas relações, fez um filme que se chama Amores e outro que se chama Separações, um logo após o outro. Oliveira não se cansou de encher o aprendiz de elogios, depois da estreia de Apenas o Fim no Festival do Rio 2008. A diferença é que Matheus não é rebuscado e, ao invés das citações intelecutais, apela para a empatia com o público através das lembranças pop: He Man, Fanta Uva.

Formalmente, o filme poderia ser mais redondo. Falta um certo tratamento da imagem, com cara de HD demais, e um cuidado maior com a direção de arte. Mesmo assim, algumas sequências se sobressaem, principalmente quando chegam nos planos próximos e closes. As emoções, apesar de obscurecidas pelo humor na maior parte do tempo, aparecem nessas horas, em planos bem pensados.

apenas-o-fim

Por dois motivos vale a referência a Matheus Souza no nosso cinema recente: com pouco, o rapaz mostrou que é um bom condutor de narrativas – apesar da já citada pouca originalidade quanto ao tema. Além disso, a escolha de Gregório Duvivier para protagonista revelou uma caracterização perfeita e fugiu do chavão de atores-diretores que “se” vivem na ficção – como Woody Allen e o próprio Domingos de Oliveira. É um filme honesto porque se auto-explica, na fala de Tom: “falar que falar sobre amor é muito clichê é que é clichê”.

Ficha técnica:

Título original:Apenas o Fim

Gênero:Comédia Dramática

Duração:01 hs 20 min

Ano de lançamento:2009

Direção: Matheus Souza

Roteiro:Matheus Souza

Produção:Mariza Leão e Júlia Ramil

Música:Pedro Carneiro

Fotografia:Júlio Secchin

Direção de arte:Gabriel Cabral e Júlia Garcia

Figurino:Tatiana Pomar

Edição:Júlio Secchin

Estúdio:Atitude Produções

Distribuidora:Filmes do Estação

O jogo dos reis

Há pequenos filmes grandiosos que são esquecidos com o tempo, mas também há aqueles que nem chegam a ser esquecidos porque nem vistos foram. É o caso de The Chess Players (Shatranj Ke Khilari), produção indiana de 1977.

Chess_players1The Chess Players narra a história dos amigos Mirza (Sanjeev Kumar) e Mir (Saeed Jaffrey), membros da nobreza da cidade de Lucknow, que descobrem o jogo de xadrez e passam horas procurando fazer o movimento perfeito, disputando várias partidas durante o dia. O prazer do jogo faz com que negligenciem suas respectivas esposas e demais atividades, vivenciando um estado de torpor, completamente alheios aos acontecimentos políticos que os cercam, estando a Índia prestes a ser invadida pela Companhia das Índias Orientais, controlada pela Inglaterra, para anexar o Estado indiano de Awadh.

Quem detém o poder no Estado de Awadh, cuja capital é Lucknow, é o Nawab Wajid Ali Shah (Amjad Khan), que não entende nada de política, mas gosta da ostentação da vida na corte e passa seus dias compondo versos e cantando, totalmente imerso nos prazeres da arte, porque confiante nos “tratados de amizade”, estabelecidos com a Companhia das Índias Orientais. Como a Companhia das Índias Orientais estava de olho em Awadh, considerado “o celeiro indiano” para a Inglaterra, o voluptuoso e bonachão Wajid Ali Shah é acusado de má administração, pelo General James Outram (Richard Attenborough), o qual se utilizou dessa artimanha para justificar a anexação de Awadh (que os ingleses chamavam de Oudh) à Inglaterra, em 1856, pois já não bastava receber bens e impostos tanto do Nawab quanto dos nobres.

O premiado cineasta indiano Satyajit Ray (mais conhecido pela “trilogia de Apu”, com os filmes Pather Panchali, Aparajito e Apur Sansar) escreveu o roteiro de Shatranj Ke Khilari/The Chess Players a partir do conto homônimo, de autoria de Munshi Premchand (e em 1981, veio a adaptar outro conto de Premchand, Sadgati/Deliverance), transformando-o em uma película de duas partes, totalizando 113 minutos.

shatran_10Satyajit Ray cria uma porção de situações cômicas para os nobres Mirza e Mir (sendo a mais engraçada aquela em que eles se veem impossibilitados de jogar porque a esposa de Mirza surrupiou as peças, então idealizam uma porção de planos para alimentar seu vício), para Wajid Ali Shah (encantado com seu trono, mais pela beleza do que por ser um símbolo de status) e para os ingleses (o culto Capitão Weston, interpretado por Tom Alter, assistente pessoal do General Outram, é um amante da cultura indiana, contrastando com o rude General, que só quer saber dos dividendos), mostrando que se pode fazer humor inteligente da mais alta estirpe.

shatran_11O jogo de xadrez que envolve Mirza e Mir é, na verdade, uma metáfora para a obsessão do General Outram em invadir Awadh, o qual movimenta cuidadosamente seus peões (os nobres indianos) e a própria Rainha da Inglaterra, visando o xeque-mate no “rei” Wajid Ali Shah. Além disso, Mirza e Mir, que antes desconheciam a variante britânica do xadrez (que encurta o tempo do jogo), decidem deixar o seu modo tradicional de jogar, para praticá-la. Uma metanarrativa extremamente bem feita.

The Chess Players foi o filme mais caro de Satyajit Ray, e um dos mais caros do cinema indiano feito em Bombaim, no século XX, tendo custado dois milhões de rúpias. Também foi o primeiro filme do diretor falado em Urdu e Hindi, e não no dialeto Bengali, como era de costume.

O filme foi exibido no Brasil, com o título de Os Jogadores do Fracasso, na 24ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano 2000. E está mais do que na hora de entrar em algum catálogo de DVD de alguma distribuidora brasileira.

The Chess Players foi um dos filmes indianos que mais me marcaram e que pouca gente conhece.

Ficha técnica:

Título original: Shatranj Ke Khilari (aka The Chess Players)
Direção: Satyajit Ray
Ano: 1977
País: Índia
Duração: 113 minutos
Gênero: Drama