Arquivo mensais:setembro 2009

Os cineastas e seus alter egos

Ficar sempre atrás das câmeras deve frustrar os cineastas, por isso alguns deles foram levados a criar personagens, espelhando-se em si mesmos. Personagens esses que terminaram estrelando diversas películas, caracterizando-se pela interpretação de um mesmo ator.

francois_truffautAntoine_DoinelAntoine Doinel, alter ego de François Truffaut, é um dos mais conhecidos; sempre interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud, desde Os incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959), passando pelo episódio Antoine e Colette, de O amor aos vinte anos (L´amour à vingt ans, 1962) e a trilogia Beijos Roubados (Stolen Kisses, 1968), Domicílio Conjugal (Bed & Board, 1970) e O amor em fuga (Love on the Run, 1979).

RecollectionsOfTheYellowHouseHá também o João de Deus, alter ego do cineasta português João César Monteiro, interpretado pelo próprio, em filmes como Recordações da Casa Amarela (1989), As comédias de Deus (1995) e As bodas de Deus (1999).

ze_do_caixao

O Zé do Caixão, do José Mojica Marins, personagem que o diretor e ator concebeu em 1963, para o filme À meia-noite levarei a sua alma, o acompanha até hoje e é um sucesso nos Estados Unidos, onde foi rebatizado como Coffin Joe.

Peter GreenawayMais recentemente o cineasta Peter Greenaway, com seu audacioso projeto multimídia As maletas de Tulse Luper (The Tulse Luper Suitcases), vê-se metaforicamente na pele do personagem Tulse Henry Purcell Luper, escritor e projetista, que se tornou um “prisioneiro profissional”, reconstruindo a história de sua vida a partir da evidência de 92 maletas, encontradas no mundo todo entre 1928 e 1989, segundo o crítico de cinema Leon Cakoff. Concebido para ser apresentado através de uma trilogia, uma série de TV, 92 dvds e livros, além de cd-roms, games e websites. Tulse Luper está sendo interpretado pelo ator JJ Feild, que já filmou The Moad Story (2003), Vaux to the Sea (2004) e From Sark to the Finish (2004).

Tulse Luper

Mas, talvez, o caso mais peculiar de alter egos no cinema seja o personagem Adam Miauczynski, criação do diretor polonês Marek Koterski, justamente pela singularidade do seu cinema.

KoterskiKoterski é dramaturgo e seus filmes são deveras teatrais (ele costuma escrever o roteiro da peça e só depois o adapta para o cinema, nunca filmando nada que não tenha ele mesmo escrito). No início de sua carreira, produziu diversos curtas e médias-metragens, como diretor assistente, bem como uma porção de documentários no Wytwórnia Filmów Oswiatowych (Educational Film Studio), na cidade de Lódz. Só depois de quarentão é que fez o seu debut como “diretor principal” com A casa dos loucos (Dom wariatów, 1985). E foi nesse filme que, pela primeira vez, entramos em contato com o personagem Adam Miauczynski, interpretado pelo ator Marek Kondrat, que repetiu o papel em Day of the Wacko (Dzien swira, 2002) e Somos todos Chrystusami (Wszyscy jesteśmy Chrystusami, 2006), mas o personagem foi interpretado também por Cezary Pazura, em dois filmes: Nothing Funny (Nic smiesznego, 1995) e Aljawju (1999).

Adam Miauczynski é divorciado, fuma compulsivamente, tem insônia, torna-se alcoólatra e está sempre imerso em suas neuroses, medos e frustrações. Ele é o protótipo do homem sonhador e ambicioso, mas que não conseguiu dar um rumo para a própria vida e acabou se tornando um poço de nervos.

Conta Marek Kondrat que Koterski lhe disse para não só interpretar Adam, mas sim ser o personagem, vivê-lo integralmente. O roteiro de A casa dos loucos foi escrito em três semanas e Koterski falou que ele foi o resultado de “traumas acumulados”. Nesse filme, ele criou toda uma atmosfera autobiográfica, inclusive o Adam criança foi interpretado pelo seu filho.

Marek Kondrat

Em A casa dos loucos, Adam (então com 33 anos) vai fazer uma visita a sua família, passando uma noite na casa de seus pais, e lá encontra o irmão Gigi (aparentemente o mais lúcido da família), a cunhada Wanda e a sobrinha Aska. A maior parte da ação desenrola-se na sala de jantar, onde completamente sem jeito Adam tenta se livrar do chá preparado por sua mãe, toca piano, lê o jornal, janta, fuma. Ele só consegue estabelecer diálogos superficiais com o seu pai e com a sua mãe, pois ambos ficam pra lá e pra cá, em ações ritualísticas (o pai volta e meia bate as meias no fogão, a mãe fica tentando abrir a porta, que está sempre emperrada). Todo esse comportamento excêntrico faz com que Wanda pire e tente o suicídio, e quem a socorre é justamente um atormentado e insone Adam.

No último filme em que o personagem Adam Miauczynski aparece, Somos todos Chrystusami (2006), ele já está com 66 anos e procura se aproximar do filho (interpretado pelo filho de Koterski, Michal), o qual é usuário de drogas, e assim ter uma desculpa para se manter sóbrio, promovendo a redenção de ambos.

Apesar de se expor em demasia, Koterski costuma mostrar Adam por um ângulo tragicômico, chegando a rir de si mesmo, como acontece em Nothing Funny, embora admita que muitas das situações vividas por Adam foram fruto de sua imaginação, e que vê no seu heroi um meio de expressar seus medos, suas dores e seus embaraços.

Que os cineastas continuem se fazendo presentes à frente das câmeras, através de personagens intrigantes, sedutores, diabólicos e neuróticos, numa autêntica emulação da vida. Quando a gente se encara de frente, se enxerga por inteiro, procura corrigir as falhas e superar temores. Assim, atrás das câmeras teremos profissionais cada vez melhores (ou mais loucos).

Os extraterrestres no 3° mundo

distrito'9'imagem4Os diretores sul-africanos vem atraindo holofotes e colecionando prêmios em diversos festivais, além de fazer ver a Hollywood que se pode fazer filmes com ideias originais e de baixo orçamento, que se tornam blockbusters com conteúdo, belíssimos filmes de arte ou comédias dramáticas realistas.

Ramadan Suleman (Fools e Zulu Love Letter), Zola Maseko (Drum), Teddy Mattera (Max and Mona), Gavin Hood (Tsotsi e X-Men Origens: Wolverine) e o novato Neill Blomkamp (Distrito 9) – esses dois últimos deixaram a África e vivem nos EUA e no Canadá, respectivamente –, são alguns dos nomes que fizeram por onde se formasse um pólo de cinema e TV no 3° mundo pós-apartheid.

Distrito 9 (District 9 – 2009) é um desses filmes que chega de mansinho e começa a fazer um barulho infernal. É o primeiro longa de Neill Blomkamp, que antes se dedicava a produzir curtas e a fazer animações 3D, inseridas em algumas séries de TV, entre elas Stargate SG-1 e Smallville.

Na realidade, Distrito 9 foi baseado num curta que Blomkamp havia feito em 2005, chamado Alive in Joburg, e ganhou forma após toda a produção para a filmagem da adaptação do game Halo ter ido por água abaixo. O nome por atrás desse projeto era o de Peter Jackson, que mesmo descontente com o ocorrido, não se deixou abalar, e se lançou como produtor da nova ficção científica, estrelada por extraterrestres.

Distrito9

Uma investigação documental sobre o que ocorreu com o funcionário exemplar da MNU (Multi National United), Wikus van der Merwe, é a tônica de Distrito 9. Nessa investigação, ficamos sabendo que uma nave extraterrestre chegou à Terra e parou no céu de Johannesburgo, na África do Sul. As forças armadas foram acionadas e resgataram vários extraterrestres que estavam muito doentes e subnutridos. O estado de Johannesburgo criou um acampamento provisório para cuidar deles. Curados, eles não quiseram partir, posto que vieram à Terra como refugiados de seu planeta natal, e começaram a disputar a cidade (e a comida) com os humanos. Como nenhuma das grandes nações ficou interessada em ajudar a África, o governo sul-africano criou o Distrito 9, uma área exclusiva para os ETs (uma verdadeira favela extraterrestre), que logo foram apelidados de “camarões” (devido ao seu jeito de procurar comida), bem como foram implantadas placas com alerta de “somente para humanos” em várias partes da cidade. A MNU foi a empresa encarregada de cuidar do Distrito 9, mas os interesses da MNU eram outros, eles estavam interessados em fazer experimentos com os extraterrestres e descobrir o segredo de suas potentes armas.

Quando o Distrito 9 passou a ser uma ameaça para os humanos, devido à incessante busca por comida, roubos, assassinatos, prostituição desenfreada e o tráfico de armas que se estabeleceu nos seus arredores, uma equipe da MNU foi levada até lá para fazer um remanejamento do local, observando as irregularidades que por lá existiam, para assim realocar os “camarões” em uma outra área, o Distrito 10. Wikus van der Merwe fez parte dessa equipe, mas teve o azar de se contaminar com um fluido extraterrestre, o qual desencadeou uma mutação em seu corpo. A partir daí, passa a ser caçado pela MNU e se vê obrigado a se refugiar na área dos ETs.

District9Apesar de ser um filme de ficção científica, Distrito 9 não traz excessivos efeitos especiais mirabolantes, pois contenta-se em ser uma alegoria tragicômica da ordem sócio-política-econômica que vigorou na África do Sul.
Numa primeira leitura, mais abrangente, os ETs representam o estrangeiro marginalizado, que por não ter nada a oferecer, fica relegado ao esquecimento e só se torna motivo de preocupação do Estado quando desencadeia graves problemas sociais. E esses problemas são de ordem local, não internacional. Quem se “preocupa” com esse estrangeiro é alguém (ou alguma empresa) que percebe que pode tirar algum tipo de proveito dele, nem que para isso tenha que agir de forma clandestina. Humilhado, acuado, impotente, esse estrangeiro se deixar tutelar, pois entende que regressar ao seu país de origem equivale a assinar um atestado de “derrotado”, embora, em seu íntimo, saiba que a pátria mãe é quem lhe quer bem.

O estrangeiro que consegue vencer e se dar bem, em Distrito 9, é Wikus van der Merwe, um Afrikaaner, ou seja, um branco de origem holandesa (lembrar que a Holanda foi um dos países colonizadores da África). Wikus se casa com a filha do presidente da MNU e se torna um funcionário exemplar. Nesse contexto, sua condição de estrangeiro fica “camuflada”. Porém, ao se “contaminar” com o fluido extraterrestre, essa condição vem à tona, e os que antes lhe bajulavam, agora lhe querem exterminar. Logo, Wikus se torna aliado dos ETs, com a promessa de que eles podem “curá-lo” (fazer com que o estigma do “estrangeiro” desapareça nele).

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Interessante notar que a maioria dos personagens de Distrito 9 é branca, e com isso podemos fazer mais uma leitura sobre os extraterrestres, os quais seriam uma metáfora para os negros. E mais interessante é perceber isso num país que vivenciou uma das maiores segregações étnicas da história da humanidade. De 1948 a 1990, a minoria branca dominou da África do Sul, impondo leis e dividindo vexatoriamente a população entre brancos, negros e mestiços, estabelecendo limites e áreas especiais, reservadas apenas aos brancos, num regime conhecido por apartheid. Só com a ascensão de Frederick de Klerk ao poder é que os grupos contrários ao apartheid começaram a ter voz, culminando com a libertação de Nelson Mandela e sua posterior eleição à presidência da África do Sul, em 1994.

Essa segunda leitura é reforçada quando sabemos que o roteiro de Distrito 9 foi elaborado em cima de acontecimentos verídicos de uma área residencial da Cidade do Cabo, batizada de Distrito Seis.  Neill Blomkamp, que completa trinta anos no dia 17 de setembro, já anunciou que uma sequência de Distrito 9 deve ser produzida em breve, devido ao enorme sucesso do filme, que custou 30 milhões de dólares e já apurou no mundo todo, até o dia 7 de setembro (menos de um mês após seu lançamento), mais de 117 milhões de dólares.

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A Sony Pictures informou que Distrito 9 deve estrear dia 30 de outubro nos cinemas brazucas. Eu não agüentei esperar, mas certamente o download me fez querer conferir esse inusitado blockbuster de ficção científica na telona.

Que mais diretores sul-africanos apareçam para o mundo, e que os diretores negros também tenham oportunidade de chegar aos grandes estúdios, assim como os brancos estão conseguindo.

Direção: Neill Blomkamp

Produção: Peter Jackson e Carolynne Cunningham

País: USA, África do Sul

Ano: 2009.

Gênero: Ficção Científica