Arquivo mensais:julho 2009

Os terremotos são obras de arte nas mãos dos Irmãos Quay

Os irmãos Quay fazem um cinema fantástico como poucos hoje em dia. Eles começaram a produzir curta-metragens de animação em 1979, na Inglaterra, país que adotaram e onde montaram o seu estúdio, o Atelier Koninck, junto com Keith Griffiths.

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Em sua segunda incursão pelos longa-metragens, os agora sexagenários Stephen e Timothy Quay se superaram e legaram ao mundo um excelente espetáculo visual surrealista, intercalado com cenas de animação em stop motion.

O filme em questão é O Afinador de Terremotos (The piano tuner of earthquakes), uma coprodução entre Alemanha, Inglaterra e França, do ano de 2005, cujo produtor executivo é Terry Gilliam, um fã confesso desses animadores e cineastas gêmeos.

Em O Afinador de Terremotos, os irmãos Quay utilizam uma estética vintage, com fotografia envelhecida em tons escuros (entre o preto, o azul e o ocre), para contar a história de Malvina van Stille (Amira Casar), uma cantora de ópera que, no dia do seu casamento, é assassinada pelo misterioso Dr. Emmanuel Droz (Gottfried John).

O Dr. Droz chama o prestigiado afinador de pianos, Felisberto Fernandez (Cesar Sarachu), à Vila Azucena, seu lar. Informa ao inocente rapaz que a sua missão é afinar sete instrumentos criados por ele, os automata. Quando Felisberto terminar de afinar todos, um forte terremoto será criado, o qual irá coincidir com um eclipse solar, propiciando um momento perfeito para o retorno de Malvina aos palcos.

Enquanto está afinando os automata, Felisberto passa a ter sonhos estranhos, e a governanta Assumpta (Assumpta Serna) lhe fala sobre alguns mistérios que rondam a Vila Azucena, local onde o Dr. Droz mantém alguns “pacientes”, entre eles a própria Malvina.

Não levando em conta a proibição de entrar em contato com os pacientes, Felisberto passa a dialogar com uma mulher solitária, que se encontra, na maioria das vezes, sentada num banco, contemplando o mar a sua frente e chamando por Adolfo. Ele se apaixona por essa mulher e descobre os planos maquiavélicos que o Dr. Droz havia engendrado. A partir daí, fará de tudo para salvá-la.

A narrativa é entrecortada por sonhos que revelam a Felisberto uma outra realidade espaço-temporal, e nesses sonhos há cenas recorrentes, como a de um homem que segura um machado, numa floresta, olha diretamente para Felisberto e dá uma gargalhada. Nessas cenas, o live-action dá lugar a uma animação em stop motion. Essas animações são uma metáfora, informando-nos que todos os personagens são marionetes do Dr. Droz, o qual brinca com as realidades espaço-temporais, numa intrincada teia diabólica para colocar Vila Azucena na história da humanidade.

O Afinador de Terremotos é um drama de fantasia onírico e surrealista que lembra os recentes Máscara da Ilusão (2005), de Dave McKean, O Labirinto do Fauno (2006), de Guilhermo del Toro, e Franklyn (2008), de Gerald McMorrow, além de uma forte influência do cinema de Jan Svankmajer.

Em 2007, os irmãos Quay filmaram Eurydice – She, So Beloved, que mistura ópera, dança, escultura e pintura, permanecendo inédito no Brasil, e o projeto atual é uma adaptação de The Mask, do filósofo e ficcionista polonês Stanislaw Lem (cuja obra mais famosa foi Solaris).

A Europa é bastante receptiva a Stephen e Timothy, cujos trabalhos sempre estão concorrendo ou sendo exibidos em vários festivais de cinema ou participando de alguma exposição em Museus e Galerias. Ano passado, em Lisboa, foi montada uma concorrida exposição chamada Dormitorium: cenários dos filmes dos irmãos Quay, no Museu da Marioneta, exposição essa que também fez parte da amostra Fourth Wall Project, um projeto que visa divulgar artistas que trabalham de forma multidisciplinar, em Boston.

Os irmãos Quay fazem com que o cinema volte a habitar os domínios de Morpheus, fazendo-nos delirar por loucas imagens kafkianas, com uma leve pitada de Lewis Carroll. É altamente aconselhável para fãs de Tim Burton, Terry Gilliam e Luís Buñuel.

piano_tuner_of_earth_xl_01Ficha Técnica:

Titulo original: The Piano Tuner of EarthQuakes

Direção: Stephen e Timothy Quay

Gênero: Drama/Fantasia/Musical

Ano: 2005

País: Alemanha, Inglaterra e França

Duração: 90 Min

17ª edição do Anima Mundi

O Rio de Janeiro respira animações diversas desde o dia 10 de julho. Isso porque a cidade maravilhosa sedia a 17ª edição do Anima Mundi até o dia 19. Depois será a vez de São Paulo, que sediará o evento de 22 a 26 de julho.

Nessa edição  serão exibidas 401 animações de 40 países, entre eles: França, Reino Unido, EUA, República Checa, Letônia, Taiwan, Moçambique e Croácia.

O convidado da vez é o animador francês Michel Ocelot (Kirikou e a besta selvagem e Kirikou e a Feiticeira), que participará, no dia 17, do Papo Animado.

Para maiores informações, basta acessar o site do evento: http://www.animamundi.com.br/fest_home.asp

Mais um clássico dos games virará filme

Hollywood já está apelando.

Quem já jogou o bom e velho Atari deve se lembrar de um jogo chamado Asteroids, no qual a gente pilotava uma cápsula espacial triangular, cuja missão era atirar nos milhares de asteróides que apareciam  ao redor.

Foi anunciado que a Universal adquiriu os direitos para adaptar esse game para o cinema.

Que tipo de filme vai render, só o futuro dirá.

A animação PONYO tem data de estreia confirmada nos EUA

PONYO on the Cliff by the Sea é uma co-produção Estúdios Disney e Estúdios Ghibli, dirigida por Hayao Myiazaki (A Viagem de Chiriro, O Castelo Animado), que terá como dubladores uma penca de famosos, como Cate Blanchett, Matt Damon e Liam Neeson.

O produtor Frank Marshall confirmou ontem que a animação PONYO  estreará, nos cinemas norte-americanos, no dia 14 de agosto, embora o dvd japonês tenha sido lançado no dia 03 de julho.

Esse intervalo de um mês é necessário para que os americanos modifiquem algo que fuja aos “padrões” da Disney.

Com PONYO, os Estúdios Disney retornam à animação manual, feita em 2 D.

Segundo Frank Marshall, essa parceria entre os estúdios americano e japonês visa promover internacionalmente  as animações de Myiazaki, atingindo um público maior.

Ele também informou que durante a Comic Con de San Diego, que acontece entre os dias 23 e 26 de julho, muitas novidades sobre PONYO serão mostradas, inclusive com a presença do próprio Myiazaki.

No Brasil, a estreia de PONYO está prevista para o dia 09 de outubro.

Para ver fotos e trailers do PONYO, clique aqui.

O cinema doentio de John Waters

Por Milena Azevedo

 

Uma lagosta gigante estuprando um travesti, tendo a cidade de Baltimore como cenário e os assassinatos da Família Mason como referência, dão o tom do que viria a ser a marca registrada do cinema desse pacato cidadão norte-americano: John Waters.

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Waters começou a fazer filmes ainda adolescente, com câmeras de 8 e 16MM, influenciado pelos cineastas Gordon Lewis, Fassbinder, Fellini e Bergman.

Embora as estéticas kitsch e trash imperassem nesses primeiros curta-metragens, desde que o ator Harris Glenn Milstead, mais conhecido como o travesti Divine, estrelou suas produções, em 1966, os freaks passaram a ser os personagens centrais de todos os seus filmes; porém, os desajustados de Waters são peculiares. Eles não estão nem aí para a rejeição da sociedade e nem querem ser “readmitidos”, pelo contrário, estão dispostos a mostrar a todo mundo que dentro de nós se esconde algo doentio, bizarro, animalesco.

John_WatersEm alguns filmes, Waters puniu os freaks de forma severa, como em Multiple Maniacs, onde Divine, após ter um ataque de fúria raivosa pela cidade, é cercada por jovens militares, que sadicamente lhe desferem tiros mortais, salvando a sociedade daquela “aberração”. Porém, ao final de filmes como Pink Flamingos e Clube dos Pervertidos, os freaks são exaltados como celebridades, pois se comportam de forma livre, sendo sexualmente liberados, fazendo com que a sociedade, que antes os temia, passe a idolatrar o seu jeito de ser.

Da mesma forma, as famílias retratadas pelas lentes de Waters fogem dos estereótipos da “família perfeita”, tão propagada por Hollywood, e se aproximam do modelo satirizado pelo quadrinista Robert Crumb, o qual ilustrou alguns de seus comix underground. Waters tanto mostrou pais caretas e reprimidos, cujos filhos “rebeldes” terminam projetando o nome da família (Problemas Femininos, Hairspray, O Preço da Fama, Clube dos Pervertidos), quanto mães solteiras ou divorciadas que criam filhos com algum “desvio” comportamental, vendo-se obrigadas a entrar na vida do crime ou iniciar algum vício ilícito e relacionamento tabu para prover a sua prole (Multiple Maniacs, Pink Flamingos, Problemas Femininos, Polyester). Também focou casais aparentemente normais, onde a mulher precisava extravasar suas emoções de forma excêntrica (Mamãe é de morte), e ainda casais sem filhos, que se auto-idolatram, e geralmente são os antagonistas das histórias (Pink Flamingos, Problemas Femininos).

Outra característica peculiar dos filmes de Waters fica por conta das trilhas sonoras e do clima retrô. Em meio a comportamentos lunáticos, imorais, cenas trash e absurdas e muito humor negro, está lá o rockinho simpático ou o doo wop meloso, escolhido a dedo, entre o repertório de Little Richard, The Centurions, Shirley & Lee, Baldwin & The Whiffles, The Crew Cuts e The Honey Sisters.

É impossível ficar indiferente ao se assistir a qualquer trabalho do John Waters. Alguns acham toscos demais, outros curtem a irreverência e as críticas sociais ali presentes.

Nesses dias em que o escracho dá as cartas na telinha e na telona, nada melhor do que se deixar levar pela a trupe dos dreamlanders.

Para ficar por dentro da cabeça alucinada de John Waters, visite o site: http://www.dreamlandnews.com/

Pink Flamingos

Besouro – nasce um heroi

E o cinema brasileiro vai ganhar sua primeira super mega produção. Trata-se de Besouro – nasce um heroi, de João Daniel Tikhomiroff.

O roteiro de Besouro tomou forma após o diretor ter lido o livro “Feijoada no Paraíso – a saga de Besouro, o capoeira”, de Marco Carvalho. Tikhomiroff ficou fascinado com a ideia de contar a história desse capoeirista brasileiro, num filme que mesclará fatos reais e ficção, recheado de cenas de luta.

Para ficar por dentro dos bastidores da produção, é só fazer uma visita ao blog oficial do filme.

Um poético clichê

 

Por Milena Azevedo

 

 

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Uma menina forçada a se trajar e a se comportar como menino, que na vida adulta enamora-se por um rapaz, iniciando com ele um romance secreto; convenhamos, é puro clichê.

Quando a trama de um filme gira em torno de um clichê, o diretor precisa ser deveras habilidoso. E foi com uma sensibilidade ímpar que o coreano Yun-su Jeon adaptou o romance Painter of the Wind, de Lee Jeong-myeong, para as telas do cinema, em 2008, na produção Mi-in-do (que internacionalmente ganhou o título de Portrait of a Beauty), da qual ele também assumiu a direção.

Em Mi-in-do, acompanhamos a história de Shin Yoon-bok (interpretada por Min-sun Kim), que ainda criança já demonstrava um enorme talento para a pintura, mas devido a um acontecimento trágico na família, foi obrigada a se passar por menino para poder estudar na corte, uma vez que somente os homens tinham direito a estudar as técnicas do desenho e da pintura.

Na corte, Yoon-bok aprimora seu traço e passa a se interessar em retratar o cotidiano das classes menos favorecidas, causando ojeriza aos mais velhos e despertando inveja nos seus colegas. No entanto, o seu mestre, Seol-hwa (interpretado por Ja-Hyeon Chu), fica encantado com as imagens e a precisão dos detalhes dessas pinturas e começa a se apaixonar por Yoon-bok, desconfiando que se trata de uma mulher disfarçada de homem.

Quando o sentimento do mestre pela aluna torna-se mais evidente, ela já está envolvida com um vendedor de espelhos, Kang-um (interpretado por Nam-gil Kim), que descobre acidentalmente o seu segredo.

E como a máxima diz que no amor e na guerra vale tudo, o mestre usará de seu poder e prestígio para separar Kang-um de Yoon-bok, que aceita se humilhar para salvar o amado, mas que na verdade termina se sacrificando para ficar livre da culpa que carregava dentro de si pela tragédia que presenciou quando criança.

Histórias de amores mal resolvidos há muitas, mas não tão belamente contadas como as que Yun-su Jeon nos mostrou nesse espetáculo visual que é Portrait of a Beauty.

Isso porque o filme de Yun-su Jeon foi feito com um apurado senso estético, onde a fotografia convida os olhos a passearem por imagens carregadas com uma sutil força poética, as quais são emolduradas por uma trilha sonora primorosa, embelezando, inclusive, as cenas de erotismo.

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Ficha técnica:

Título original: Mi-in-do

Título internacional: Portrait of a Beauty

Gênero: Drama/Romance

Diretor: Yun-su Jeon

Duração: 108 minutos

Ano de Lançamento: 2008

País: Coreia do Sul

Da Nostalgia do Primeiro Amor

Renato queria fazer as coisas como gente grande. Fazer parte da turma que se reúne na praça, usar calças compridas, cortar o cabelo sentado na cadeira destinada aos homens, e não às crianças, na barbearia. A ânsia dele é singular e ao mesmo tempo plural: como vários garotos de sua idade, Renato já exala os hormônios da puberdade, mas é como ninguém que se apaixona por Malèna, a mulher mais observada da pequena Castelcuto, pequeno vilarejo da Sicília.

 

Malèna é casada com um dos muitos soldados italianos que estão combatendo na Segunda Guerra Mundial. Bela e solitária, conjuga dois predicados inaceitáveis para a população da cidadezinha. Todos acham que Malèna tem um amante. Ou vários. E já que Renato nutre fantasias cinematográficas com a mulher, não hesita em persegui-la em seus passeios diários à casa do pai idoso, para descobrir se quem ela visita é mesmo o amante. É desse voyeurismo pueril que Tornatore retira a essência da trama: todos temos um pouco de observadores da vida alheia, mas as consequências do que faremos com isso faz muita diferença.

 

É fácil dizer que em Malèna, seu nono longa-metragem, o diretor Giuseppe Tornatore repetiu algumas de suas próprias fórmulas cinematográficas, como a da narrativa em primeira pessoa e em flashback, em um tom que remete às lembranças oníricas da infância, às vezes tendentes à fantasia ou à inverossimilhança. Mas o fato é que poucos sabem contar esse tipo de história que beira à nostalgia pura como ele. Em Malèna, aliás, a fotografia de Lajos Koltai e a música de Ennio Morricone convidam o espectador à contemplação.

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Apesar da paisagem paradisíaca das praias da Sicília, e da música convidativa às aventuras de Renato, o filme nos prega algumas peças, que servem para nos inculcar a seguinte questão: que importância damos ao que os outros pensam? Malèna é, claramente, vítima de um preconceito às avessas, e nem um julgamento oficial fará com que deixe de ser julgada, todos os dias, pela imaginação de homens e mulheres. Se ela traía ou não o marido, não importa. O que importa é que, diante da impossibilidade de escapar das fofocas, Malèna passa a dar motivos a elas. E apesar de a ela pouco interessar o que os outros pensam, seus observadores e algozes não a deixarão impune.

 

Em vários momentos da trama é possível pôr em dúvida o que de fato aconteceu a Malèna. Mas isso, igualmente, pouco importa. Além de oferecer um deleite aos olhos e aos ouvidos, Tornatore pretende que cada um de nós se identifique com Renato, em seu primeiro amor. Partindo do pressuposto de que o primeiro é sempre o mais puro, talvez aí sejamos capazes de entender que, somente amando incondicionalmente Malèna, a ele foi possível não julgá-la, aceitá-la e até perdoá-la de seus pecados.

 

 

 

 

Ficha técnica:

Título Original: Malèna.

Direção: Giuseppe Tornatore.

Roteiro: Giuseppe Tornatore, baseado em história de Luciano Vincenzoni.

Fotografia: Lajos Koltai.

Música: Ennio Morricone.

Produção: Carlo Bernasconi e Harvey Weinstein.

Elenco: Mônica Bellucci (Malena Scordia), Giuseppe Sulfaro (Renato), Luciano Federico (pai de Renato), Matilde Piana (mãe de Renato), Gaetano Aronica (Nino Scordia).

Lançado em 16 de março de 2001 no Brasil.