Foto: Everett/REX_Shutterstock

Os diamantes brutos de Céline Sciamma

Pôster de Girlhood“Eu quero ser normal, como os outros.” A sentença de Marième, diante da negativa da professora quanto à sua continuidade na escola, soou como gatilho de uma série de ações que se sucedem nas quase duas horas de projeção de Girlhood, terceiro longa-metragem da diretora francesa Céline Sciamma. Marième é negra, mora num subúrbio parisiense e sugere à professora que algo – ou alguém – lhe causa problemas que a impedem de tirar melhores notas para ir à faculdade. Ela não parece estar, no entanto, de acordo com o julgamento da professora. Se o colégio lhe fecha uma porta, Marième abre outras.

Mais uma vez, depois do sucesso de Tomboy, Sciamma recorre aos primeiros planos para abordar as questões de gênero e definição de identidade na adolescência. Se Tomboy tratava de uma criança à procura de sua própria identidade de gênero a partir de uma mudança de grupo social, agora, a protagonista precisa encontrar seu caminho em um mundo que parece não aceitar mulheres suburbanas negras que queiram algo mais do que limpar quartos de hotéis finos. Marième se depara, em sua trajetória, com uma série de negativas; mas também tem as suas muito bem definidas, e declará-las ao mundo fará parte de sua construção de identidade.

Foto: Everett/REX_Shutterstock

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O recorte apresentado por Sciamma, embora realista, não repete as abordagens clássicas de dramas sociais que levam espectadores a encarar os protagonistas como pobres homens e mulheres sem opções devido à estratificação social. Em uma das cenas mais tocantes do filme, Marième – já transformada em Vic – e as três amigas de sua gangue cantam Diamonds, de Rihanna, com roupas roubadas de lojas parisienses às quais não têm acesso, em um hotel pago com dinheiro extorquido de outras meninas na escola. Estão felizes por algumas horas, e ali, trancadas em um cubículo em que podem fazer o que bem entenderem, têm suas identidades definidas pelo que lhes dá prazer. O azul que predomina na fotografia dessa sequência casa perfeitamente com letra que diz que elas são lindas como diamantes no céu.bandedesfilles1

No entanto, nem tudo é azul, e muito menos diamantes no caminho das meninas. Os estereótipos do homem que maltrata mulheres que decidem ser donas de sua própria vida sexual, da vendedora que segue as garotas para ter certeza de que não vão roubar na loja de departamento, e as lutas de arena em que cortar o sutiã da adversária é o prêmio máximo, são lembranças da realidade que insiste em colocá-las em batalha constante pela afirmação e igualdade de direitos. A peculiaridade do tratamento que a diretora dá a sua protagonista é a naturalidade com que trabalha seu inconformismo, que nada tem de heróico. Vic ainda não tem muito claro o que vai fazer da vida, mas com certeza sabe o que não quer.

Se na década de 1990, Larry Clark apresentou adolescentes perdidos em sua busca pela identidade em Kids, o cinema francês mais recente tem dado exemplos de uma abordagem que foge da tese do homem como produto social. Sylvie Verheyde com sua Stella, e Mia Hansen-Love com Adeus, Primeiro Amor, são exemplos de um cinema que se define pela construção de personagens em momentos de transição, sem cair no óbvio de dar-lhes a condição de vítimas. Céline Sciamma, com Girlhood, está nessa trajetória. Segue o caminho de uma cinematografia que dá protagonismo a personagens que estão à margem, mas que no fim, enfrentam suas contradições sem cair em estereótipos clássicos. Gente que não se pretende extraordinária, mas que acaba sendo ao tomar as rédeas de suas escolhas.

Nina Simone

Sobre Nina Simone – e sobre artistas que ousam se posicionar politicamente

“Escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Para mim, isso é o meu dever, e neste momento crucial de nossas vidas, quando tudo é tão desesperador, quando tentamos apenas sobreviver a cada dia, não tem como não se envolver. Jovens e negros sabem disso, e é por isso que estão tao envolvidos com a política. (…) Não se tem escolha… Como ser artista e não refletir a época?”

Finalmente assisti a What happened, Miss Simone?. A cinebiografia de Nina, mito do soul/jazz/blues norteamericana – que de tão sofrida pessoalmente ficou para a história da música como um caso de mulher, apesar de talentosa, atormentada – mexeu especialmente comigo nestes dias de turbulências políticas e história que se faz à nossa frente.

Nina SimoneNina sofreu, como todos os negros que ganham notoriedade em nossa sociedade branca e machista, com barreiras de todos os tipos, desde criança, para se firmar no mundo da música. Estudou piano clássico toda a infância e adolescência, mas não foi aprovada no teste do Instituto Curtis, de nível universitário, e acabou tendo de ganhar a vida tocando piano e cantando em bares de Atlantic City. Não foi escolha, diz ela no documentário; mesmo depois de estourar após lendária apresentação no Carnegie Hall, se ressentia de não ter seguido carreira como pianista clássica.

O documentário vai além de uma abordagem superficial comum nos últimos lançamentos sobre estrelas da música pop. Em Amy, de Asif Kapadi, a vida de Miss Winehouse é muito mais explorada que sua obra, numa tentativa de vender um lado B, reservado, que os jornais não foram bem sucedidos em relatar. Já no recente Chico – Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr, entramos no labirinto do processo criativo de Chico, numa narrativa que tenta aproximá-lo da pessoa comum e cheia de conflitos que ele é – e que todos somos, claro.

Em What happened, Miss Simone?, no entanto, os rodeios ficaram de fora da montagem, e nenhum depoimento, nenhum áudio da própria cantora, nenhum fotograma é inútil. Nina é o exemplo da mulher que foi oprimida de várias formas, por aqueles que negaram sua matrícula na universidade, pelo marido violento; e toda sua fúria foi canalizada para o movimento por direitos civis nos Estados Unidos nos anos 60 do século XX. Nina compôs Mississippi Goddamn e o mundo olhou feio. Esteve na marcha de Selma, conviveu com artistas e intelectuais ligados à causa, cantou no enterro de Martin Luther King. E aí o mundo comercial veio abaixo. Seus discos eram recusados pelas rádios, os shows minguaram.Nina Simone_fotograma_liberdade

Iniciei este texto referenciando o ativismo de Nina Simone porque esta semana vivemos situação peculiar e, parece, agora recorrente na vida cultural brasileira. Kléber Mendonça Filho – diretor do longa Aquarius, forte concorrente à Palma de Ouro em Cannes – e sua equipe fizeram um protesto silencioso, com cartazes, denunciando a tentativa de golpe branco no Brasil. Seguiu-se a essa atitude uma manifestação parecida à da indústria musical dos Estados Unidos na época de Nina: incitação ao boicote, críticas raivosas ao gesto de atores e diretor, sugestão de que seria um protesto suspeito pelo patrocínio que o filme recebeu via leis de incentivo.

Somente uma sociedade que silencia diante da opressão à diversidade é conivente com atitudes desse gênero por parte de seus meios de comunicação. O protesto de Kléber e de sua equipe faz parte de uma série de outros que se espalham pelo Brasil e exterior, conclamando a sociedade a entender que a extinção do Ministério da Cultura, por exemplo, foi uma tentativa de silenciar a classe artística nesse processo de impeachment, meio este que historicamente se posiciona de forma contundente diante da corrupção, do autoritarismo, do obscurantismo. 

O que What happened, Miss Simone? me fez ver é que apesar dos boicotes, a arte resiste. Sem dinheiro, claro, ela passa a ser escassa, gera feridas profundas na mente criativa de gente como Nina. Mas apesar da conivência de muitos com a opinião “livremente” imposta pelos meios de comunicação, a história acaba demonstrando que sem Ninas e sem Klébers, o mundo não gira e a opressão resiste. Sejamos, pois, atentos a essa gente.

Emmanuel Lubezki, Leonardo DiCaprio e Alejandro G. Iñarritú

O roteiro dos patrões e o sucesso mexicano no Oscar 2016

“Let us not take this planet for granted. I do not take this night for granted.”
Leonardo DiCaprio
(Não vamos subestimar o valor deste planeta. Eu não subestimo o valor desta noite.)

“What a great opportunity to our generation to really liberate ourselves from all prejudice, and this tribal thinking, and make sure for once and forever that the color of the skin become as irrelevante as the lenght of our hair.”
Alejandro González Iñarritú
(Que grande oportunidade para a nossa geração de se libertar de todos os preconceitos e desse ranço tribal, e afirmar, de uma vez por todas, que a cor da pele é tão irrelevante quanto o comprimento do cabelo.)

Emmanuel Lubezki, Leonardo DiCaprio e Alejandro G. IñarritúA grande noite da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, de entrega dos Oscars, exibiu imagens de surpresa e mal estar, mas também serviu de palco para discursos importantes e demonstrações subliminares de valorização de talentos estrangeiros e temas espinhosos. A cerimônia do último domingo (28) terminou com dois mexicanos aclamados pela Academia e um filme sobre a descoberta do escândalo da pedofilia ovacionado. Isso não é pouca coisa.

Chris Rock e o roteiro maldoso criado para satirizar o protesto de artistas negros contra o racismo subjacente às indicações, o #OscarsSoWhite, deixaram muita gente de olhos arregalados; as falas de Rock, no entanto, ao reafirmar que faltam aos negros nem tanto indicações, mas oportunidades; ao relembrar que dos “liberais” que deram dinheiro para a eleição de Obama poucos empregam negros; e ao demonstrar, nas entrevistas em que mostrava gente que nada entendia dos filmes mais recentes, que o cinema já não é a arte querida do povão, deixaram claro que ele não estava ali sob manipulação. Participou deliberadamente do teatro, consciente do papelão e ao mesmo tempo com tópicos relevantes. Não vejo como retrocesso, mas como parte da caminhada. As piadas que “tentaram” afirmar que Hollywood é, sim, igualitária, foram no entanto totalmente descabidas.

Com tanta saia justa e poucos números musicais bons, houve quem achasse a cerimônia chata. Prefiro dizer que ela foi como todas as outras, mas sem a beleza e a graça dos números musicais de Hugh Jackman, por exemplo, e sem homenagens importantes. Perdeu-se a oportunidade de reconhecer a carreira de Sylvester Stallone e de repetir a bela cena dos Globos de Ouro em que ele foi aplaudido de pé por seus pares. Perdeu-se a oportunidade de ter Anohni, cantora transgênero antes conhecida como Antony, apresentando sua canção indicada ao Oscar – em um ano em que Eddie Redmayne foi indicado ao prêmio de atuação por seu papel como a primeira transexual da história (em A Garota Dinamarquesa). Foi um Oscar de fachada, como muitos outros, mas com detalhes que devem ser ressaltados.

Ennio Morricone

Ennio Morricone

Um italiano mestre em trilhas sonoras para o cinema, Ennio Morricone, foi pela primeira vez reconhecido pela Academia. Seu trabalho em Os Oito Odiados é magnífico e um Oscar para ele lhe dá uma chancela de que nem precisa mais. Mesmo assim, foi bonito ver um senhor de 87 anos com uma carreira sólida – também no cinema americano – receber sua estatueta com aquele jeito de criança. Assim como foi encorajador ver dois diretores chilenos levarem o prêmio de melhor curta de animação – por Bear Story. Tivemos uma animação brasileira com forte carga de crítica social entre os indicados, O Menino e o Mundo, e um filme com sério conteúdo de denúncia sobre a crise de 2008 – A Grande Aposta – levar o prêmio de melhor roteiro adaptado (apesar de achar que merecia outros prêmios, como o de melhor edição).

Penso que o forte do Oscar deste ano, a despeito disso tudo, foram os reconhecimentos contidos nos prêmios de melhor direção, direção de fotografia, ator e filme. O Regresso – espetáculo visual que está longe de ser só a história de um homem quase enterrado vivo que deu a volta por cima, lutou contra um urso e vingou o filho assassinado, mas que também declara, por meio de seus personagens, o quanto os índios são sempre esquecidos no histórico de violência que marca a colonização das Américas – mereceu todos os prêmios e mais alguns. O diretor Alejandro Iñarritú lembrou desse histórico em seu discurso (citado lá na epígrafe) e todo o texto de seu filme fala nesse sentido.

Aliás, num ano em que Donald Trump vocifera e ameaça os imigrantes latinos, ter um diretor mexicano levando seu segundo Oscar consecutivo, e um diretor de fotografia também mexicano ganhando seu terceiro, são simbolismos dignos de comemoração. Não só pela nacionalidade deles. Mas pelo valor reconhecido a despeito da “cor da pele”, como disse Iñarritú. O trabalho de cinematografia de Emmanuel Lubezki, o Chivo, alcança requintes históricos com um plano sequência inicial de tirar o fôlego, cenas que fazem a paisagem falar por si e a destreza em fazer quase tudo com luz natural. Ambos ajudaram com maestria Leonardo DiCaprio a levar seu primeiro Oscar pra casa, já que sua atuação em O Regresso nem foi a melhor de sua carreira.

Elenco e equipe de Spotlight, o vencedor na categoria melhor filme

Elenco e equipe de Spotlight, o vencedor na categoria melhor filme

O reconhecimento de melhor filme caberia a ele sem fazer feio. Mas o prêmio coube a Spotlight, uma história sobre como quatro jornalistas investigativos batalharam por meses para trazer à tona um dos maiores escândalos dos Estados Unidos, o da pedofilia na Igreja de Boston, num encerramento que serviu como choque de realidade à noite de domingo. Porque nem sempre o melhor filme é eleito – às vezes ele pode nem ter sido indicado. Mas o melhor filme trazer uma história que muita gente quis esconder é um feito tão importante quanto foi o de 12 Anos de Escravidão, naquele ano em que o Oscar nem foi tão branco…

BEVERLY HILLS, CA - JANUARY 10: In this handout photo provided by NBCUniversal,  Sam Esmail accepts the award for Best TV Series, Drama for "Mr. Robot" during the 73rd Annual Golden Globe Awards at The Beverly Hilton Hotel on January 10, 2016 in Beverly Hills, California.  (Photo by Paul Drinkwater/NBCUniversal via Getty Images)

Os Globos de Ouro e o ano novo no cinema

Começar o ano com premiação é sempre bom, né? Na madrugada desta segunda (11) ficamos conhecendo os primeiros filmes/séries/profissionais que brigarão, a partir de agora, na corrida de obstáculos que é a série de prêmios que desemboca nos Oscars. Os Golden Globes (Globos de Ouro), prêmio da associação de imprensa estrangeira em Hollywood, não são exatamente uma prévia porque dizem que os vencedores do Oscar são “cantados” ao final do Festival de Toronto. Mas foi nesta madrugada que começou o glamour, tapete vermelho, choradeira, memes…

E a noite foi dele. O meme, claro. Leonardo DiCaprio foi o rei. Mas ainda teve carinha de nojo do Ricky Gervais, Taraji P. Henson distribuindo biscoitos e o look Hebe Camargo da Lady Gaga. Costumo achar que quando uma noite tem muita piada em torno das caras e gafes das estrelas é porque o ano está fraco, mesmo. Poucos filmes realmente significativos, e poucos prêmios que valham a pena.

sylvester-stallone-rocky-balboa-shined-in-golden-globe-awards-nightsNo entanto, gostei desta edição dos Globos de Ouro porque algumas injustiças foram contornadas. Reconhecer o valor que Sylvester Stallone teve para a indústria (e para a formação, no imaginário coletivo, da imagem do homem que luta e vence) e vê-lo ser ovacionado por seus pares e pela imprensa foi belíssimo. Rocky Balboa levou o prêmio de melhor ator coadjuvante em seu papel por Creed. Além disso, revisitar aquela sequência magnífica de cenas de Denzel Washington, que recebeu o prêmio Cecil B. deMille por sua carreira, foi outro deleite. Denzel é um dos atores mais estáveis em seu alto nível de atuação. Um prêmio merecido pra um ator que foi indicado a 7 Globos e ganhou 2.  Ennio Morricone, raramente lembrado, foi reconhecido por seu belo trabalho com a trilha de Os Oito Odiados. Aaron Sorkin, roteirista mestre de séries de TV, ganhou mais uma pro currículo em sua carreira cinematográfica.

Também é importante dizer que, apesar de flertar bastante com o retorno “financeiro” de suas escolhas, a imprensa estrangeira que votou deu seu aval ao novo. Premiou uma série pouco conhecida, Mozart in the Jungle, reconheceu o brilhantismo de Oscar Isaac em Show me a hero, e lembrou de Brie Larson em Room, um filme que estourou em Toronto. E coroou a bela carreira de Mr. Robot, que considero a melhor série do ano passado.

BEVERLY HILLS, CA - JANUARY 10: In this handout photo provided by NBCUniversal, Sam Esmail accepts the award for Best TV Series, Drama for "Mr. Robot" during the 73rd Annual Golden Globe Awards at The Beverly Hilton Hotel on January 10, 2016 in Beverly Hills, California. (Photo by Paul Drinkwater/NBCUniversal via Getty Images)

(Photo by Paul Drinkwater/NBCUniversal via Getty Images)

De resto? Tudo como previsto. As piadas do Ricky Gervais são péssimas, um filme que começou como franco favorito – Carol – saiu sem nada e The Revenant começou a correr por fora, com 3 Globos em categorias principais: melhor filme drama, melhor diretor e melhor ator para Leonardo DiCaprio. The Martian ainda surpreendeu e levou 2 Globos, de melhor filme comédia/musical (!) e atuação para Matt Damon.

O saldo positivo é que, assim como em 2014, em que Her, Clube de Compras Dallas e Nebraska despontaram, 2016 é o ano em que deu pra sair da cerimônia com uma listinha de séries e filmes modestos e interessantes pra esperar. Além, claro, de ver mais uma vez o talento brasileiro ser aplaudido em Hollywood, com a indicação do nosso Wagner Moura por seu papel em Narcos. O capitão Nascimento fez bonito no tapete vermelho, por sinal, e mostrou que chegou pra ficar, sem precisar se render ao clichê do astro latino que só faz pontas.

P.s.: As indicações aos Oscars já serão anunciadas nesta quinta-feira, 14 de janeiro. Aguardemos…

P.s.2: Daqui a um mês (11 de fevereiro) começa o festival de Berlim, com júri presidido por Meryl Streep. Este ano teremos novos filmes de Thomas Vinterberg (Dogma 95), André Téchiné e Danis Tanovic.

Mr. Robot

Retrospectiva 2015 – listas!

Aos 44’ do segundo tempo, estou cá com a Retrospectiva 2015 do blog. Quem é amigo sabe, mas quem não é, explico: o espaço passou boa parte do ano parado porque morei no exterior por um ano, fazendo uma especialização em jornalismo cultural, na Espanha. Nesse período, meus artigos foram escritos para a revista Cultura Joven – convido-os a visitar, tem muita coisa interessante lá. Pois bem, voltei a Natal em setembro e a retomada foi paulatina. Espero que em 2016 este canto esteja bem atualizado. É uma de minhas metas.

Madri me trouxe descobertas maravilhosas. A principal delas, talvez, de que é possível viver só e ser feliz. Fui feliz sendo estrangeira, fazendo amigos com uma cultura bastante diferente, estudando tudo e todos, provando cada sabor e cada arte. Foi magnífico!

Um dos passeios de que mais gostava era ir caminhando ao cinema perto de onde morava, o Verdi. Fiz isso semanalmente, e às vezes até duas vezes por semana. É maravilhoso morar numa cidade que respira cultura e que a respeita. Portanto, adianto aqui que minha retrospectiva terá muita coisa europeia, muita coisa espanhola. Faço o mea culpa. Mas ela serve também para dividir com os amigos um pouco do meu ano. Resolvi, com esse intuito, rever não só melhores filmes, mas séries que conheci (e inclusive as antigas, que via dubladas para aprender espanhol), exposições e clássicos espanhois que tive oportunidade de ver.

Espero que gostem. Comentem, dividam suas retrospectivas, compartilhem com os amigos. Um feliz 2016 para todos nós, com cultura transbordando em nossas almas!!

Melhores filmes:
Leviathan (Dir. Andrey Zvyagintsev)
Girlhood (Dir. Céline Sciamma)bandedesfilles1
El Clan (Dir. Pablo Trapero)
Hippocrate (Dir. Thomas Lilti)
Inside Out (Dir. Pete Docter e Ronnie Del Carmen)

Melhores filmes exibidos em sessões especiais:
Close Up (Dir. Abbas Kiarostami – Filmoteca Española)
Tubarão (Clássicos Cinemark)
Carlota Joaquina (Clássicos Cinemark)
Depois de Maio (Dir. Olivier Assayas – Filmoteca Española)
Grease (Dir.  Randal Kleiser – Sing Along Teatro Fígaro Madrid. Obs.: Mais pelo Sing Along e menos pelo filme, hehehe)

Melhores filmes espanhóis “descobertos”:Amanece_quenoes_poco_1_c_filmoteca.jpg_1306973099
Amanece que no es poco (Dir. José Luis Cuerda)
Plácido (Dir. Luis García Berlanga)
El mundo sigue (Dir. Fernando Fernán Gómez)
La mitad del cielo (Dir. Manuel Gutiérrez Aragón)
El baile (Dir. Edgar Neville)

Melhores séries:
Mr. Robot (1a. temporada)Mr
The Affair (1a. e 2a. temporadas – ótimas!)
Cuéntame cómo pasó (série espanhola que já tem uns 20 anos, mas que conta a vida de uma família e tendo como pano de fundo a história política e cultural da Espanha – recomendo demais!)
The Big Bang Theory (qualquer temporada – nunca falha!)
The Knick (2a. temporada)

Melhores shows:
Jorge Drexler (Sala Riviera/Madri – 06/03/2015)
Melodie Gardot (Madgarden/Madri – 25/07/2015)Jorge Drexler
Mahmed (Festival do Sol/Natal – 07/11/2015)
Yann Tiersen (Madgarden/Madri – 23/07/2015)
Paulinho da Viola (Teatro Riachuelo/Natal – 1/11/2015)

Melhores exposições:
Vogue like a painting (Museu Thyssen Bornemisza/Madrid)
Evandro Teixeira (Museu de Arte do Rio/Rio de Janeiro)
Enrique Meneses: la vida de un reportero (Canal Isabel II/Madrid)
Castelo Rá-Tim-Bum (Centro Cultural Banco do Brasil/Rio de Janeiro)
Vistas Lumière (Centro Cultural Correios/Rio de Janeiro)

Cena do espetáculo por Raiane Calistrato

Sobre Nuestra Senhora de las Nuvens e um passado que custa em ir embora

Voltou ao espaço do Barracão uma das montagens da trilogia latino-americana – Nuestra Senhora de las Nuvens, Abrazo e Dois Amores Y Un Bicho – que o grupo potiguar Clowns de Shakespeare estreou no final de 2014. Iniciativa de se aplaudir, como eles mesmos têm feito questão de lembrar: numa cidade sem teatros, manter uma peça em temporada de três finais de semana é quase uma afronta à sobrevida. Uma ode à resistência. O texto de Nuestra Senhora é do dramaturgo argentino Arístides Vargas, e assim como em outros espetáculos do grupo, a tradução e direção são de Fernando Yamamoto.
Cena do espetáculo por Raiane Calistrato
Vargas foi obrigado a se exilar durante a ditadura militar argentina e sua família, que permaneceu lá, sofreu as consequências quando ele passou a viver no Equador. O texto é, claramente, um emaranhado de recortes de sua experiência autobiográfica, com referências à sua clandestinidade e o reconhecimento de colegas que viveram o mesmo processo. Fossem compatriotas ou não. A narrativa acontece em dois tempos de ação: o relato dos que se encontram no exílio e relembram com nostalgia a época em que viviam em Nuestra Senhora de las Nuvens; e o tempo daquelas lembranças, que recupera o lugar de onde os exilados vieram em esquetes que duram alguns minutos e que parodiam o mundo de qualquer província.

Nesse “tempo das lembranças” há a memória do carnaval, o conto das origens do lugar em que todos são da mesma família (referências ao coronelismo político latino-americano não são mera coincidência), e alguns momentos de comédia escrachada, um pouco clownesca, como o relato de quando a mulher do maestro o fez passar vergonha diante de toda a orquestra. Tudo isso costurado com depoimentos de quem foi obrigado a viver fora de seu país porque não se conformou com o conformismo generalizado.

Foto: Raiane Calistrato

Foto: Raiane Calistrato

A direção contrasta o colorido do mundo das lembranças com o cinza dos relatos, extraindo, de um grupo um tanto irregular de quatro atores, performances destacáveis, que chocam e fazem rir a plateia. Um público que – pasmem – ainda se assusta com cenas de nudez. Mas é claro que existe um porém. Assim como as memórias de um exilado, bastante fragmentária e dispersa, o texto de Nuestra Senhora demora a engatar. Há momentos geniais e vários em que faz dispersar, como numa conversa muito longa em que o interlocutor muda de assunto várias vezes.

Foto: Raiane Calistrato

Foto: Raiane Calistrato

O figurino, de João Ricardo Aguiar e Maria de Jesus, ao lado da cenografia, também de Aguiar e  Fernando Yamamoto, são jóias que encantam e sedimentam o grupo como um dos grandes representantes do bom teatro contemporâneo brasileiro. Pode-se comparar o trabalho dos Clowns de Shakespeare com outros pelo Brasil e raramente se encontra uma produção tão esmerada em figurino quanto a deles. É teatro de encher os olhos, fazer admirar cada detalhe de uma cena.

Rafael Teles e Marco França são os responsáveis pela trilha sonora, que junta Gotan Project e temas de caixinha de música, outro deleite para o espectador. Ao lado da iluminação de Ronaldo Costa, complementam a bela construção visual de Nuestra Senhora de las Nuvens. Faltou à adaptação, no entanto, impiedade para cortar os excessos do texto. Dar mais liga à desconexão. Se fazia parte das intenções do autor, o intento não ficou claro e acaba funcionando mal no todo.

É um trabalho menor do grupo, que já fez adaptações redondas, como Muito Barulho por Quase Nada. Falta a magia de um texto bem conectado, daqueles que vai conduzindo a um clímax sem que ninguém se dê conta. Mas como relato de uma viagem com memórias que não se esquece, o espetáculo até que agrada. Porque nunca é demais contar esse tipo de história.

Grande elenco latino americano no drama Os 33

Os 33 e o orgulho chileno



Tinha tudo pra dar errado – quase dava – e se eu não soubesse como terminou teria passado alguns dos momentos mais angustiantes de minha vida no cinema. A história dos 33 mineiros que em 2010 foram soterrados enquanto trabalhavam na Mina San José, no Chile, e ficaram presos a 700 metros abaixo da superfície por nada menos que 68 dias finalmente virou filme. Mas aquelas afirmações também servem, em parte, para a obra cinematográfica. Tudo foi televisionado quase que na íntegra e sabemos como termina, e isso é o trunfo e ao mesmo tempo a desgraça de Os 33, drama dirigido por Patricia Riggen e que está atualmente em cartaz no Brasil.
Grande elenco latino americano no drama Os 33Trunfo porque a história é extraordinária por si, difícil de acreditar. Como disse um amigo, quando aconteceu já cheirava a roteiro de cinema. Se o encadeamento de fatos que levou ao sucesso do resgate não chegasse à tela grande seria decepção continental – e nisso incluo chilenos e latino americanos porque estamos todos acostumados a nos ver referidos na imprensa internacional apenas em tragédias e corrupção, e não em histórias de sucesso do engenho humano, como essa. A produção é didática e explica coisas pouco claras só pelos relatos jornalísticos. Eu não compreendia, por exemplo, como eles tiveram acesso a comida, cuidados médicos e até brindes enquanto estiveram soterrados.

Mas a desgraça aparece logo no começo, ao nos darmos conta de que o filme é todo falado em inglês. Com um elenco de bons atores latinos e espanhóis – incluindo o mineiro líder, interpretado por Antonio Banderas, e o chefe, na pele de Lou Diamond Phillips (La Bamba), além do galã espanhol Mario Casas – dá agonia ver gente boa interpretando num idioma que não é o seu. E mais, que não é o do país que realizou o feito de resgatar toda aquela gente. Espalhou-se uma anedota de que a diretora testou o elenco falando em inglês e em espanhol com sotaque chileno, e que a segunda opção teria sido muito mais difícil.

O filme também carrega muito nas tintas da emoção. Não bastasse o quão impactante foram os acontecimentos em si, precisava colocar violinos de fundo em quase todas as cenas e incluir tantos dramas familiares na narrativa? Isso se nota também no trabalho dos atores. Juliette Binoche, por exemplo, tem uma atuação digna do francês água com açúcar Chocolate. Aliás, Los 33 Cartelconta-se que Juliette Binoche entrou no elenco porque Jennifer Lopez não pôde. Mas insisto: a produção poderia ser mais latina; até Sonia Braga estaria bem melhor no papel que ficou com a francesa.

Falando em Sonia Braga, um dos destaques do filme para o público brasileiro é o personagem do Ministro de Minas chileno, defendido com competência por Rodrigo Santoro. Apesar de ele ter feito papeis melhores nos últimos anos, como em Heleno ou Não por Acaso, dá uma satisfação enorme ver um ótimo ator brasileiro em papel de destaque num filme que conta essa história de nossos vizinhos.

E aí fecho o círculo que comecei no primeiro parágrafo, falando de trunfo e desgraça. A história é vizinha, de patriotismo, um registro do orgulho chileno por uma realização fantástica. Esses fatos bastariam para fazer uma produção crua, direta, sem tantas firulas. Mas a intenção deve ter sido gerar uma obra internacional, para ser vendida a muitos países e agradar ao mercado norte americano, que não gosta de legendas; por isso, poderia dar errado. Mas vai acabar dando certo. Se pelo menos o mundo tomar conhecimento de que 33 homens ficaram presos no coração de uma montanha no deserto do Atacama, e contrariando todas as expectativas, foram resgatados com vida por uma equipe que não deixou de acreditar que isso seria possível.

Após o Anoitecer: entrando no universo pop de Haruki Murakami

O japonês Haruki Murakami é uma das figuras mais conhecidas da literatura contemporânea. Talvez porque, apesar de sua nacionalidade, sua carreira seja marcada por uma escrita que se aproxima do cânone ocidental, e suas narrativas sejam frequentemente descritas como colagem de referências da cultura pop. Em 2013 foi considerado o favorito para levar o Nobel de literatura, prêmio que eleva as vendas de qualquer um só pela posição no ranking de apostas. Após o Anoitecer (After Dark, lançado no Brasil em 2009, pela Alfaguara), seu décimo primeiro romance, aborda uma noite na vida das irmãs Eri e Mari, enquanto uma dorme um sono profundo e a outra passa a madrugada lendo em um bar depois de perder o último trem para casa, interrompida pela chegada de personagens noturnos em Tóquio. Por ser um volume pequeno, serve bem como introdução à obra do escritor japonês.

Cada capítulo começa com a imagem de um relógio que dita o tempo à medida em que a madrugada avança. O relato de Murakami é quase cinematográfico, com cortes nas cenas que deveriam ser retomadas depois, mas que muitas vezes são deixadas sem conclusão. As histórias desenvolvidas em cada capítulo nem sempre se cruzam, e o que fica claro é que o autor se esmera, sobretudo, na construção de imagens. Em sua narrativa, o leitor é convertido em espectador de cenas, como um guarda que observa o vaivém diante das câmeras de vigilância.

Pouco se sabe sobre os personagens e suas motivações sem que eles o digam explicitamente. E essa falha é do mesmo gênero das que estragam determinados roteiros de cinema. Em vez de delinear a caracterização do personagem, o autor o põe se auto explicando. O exemplo mais nítido disso é o de Takahashi, músico de jazz que se realiza ensaiando com a banda, mas que está se preparando para deixá-la. A longa conversa com Mari em que ele explica as razões que motivam sua mudança de vida é chata e um tanto contraditória: transforma uma figura que, em princípio, causa curiosidade, em alguém que precisa explicar intenções que não encaixam com seu perfil.

Os diálogos, portanto, costuram uma narrativa fragmentada, de forte inspiração na cultura pop. A doença pela qual passa a personagem de Eri, que poderia ser identificada como uma ansiedade contemporânea, fica sem profundidade. Seria ela vítima de uma fobia que a leva a se transformar na Bela Adormecida ou estaria encarcerada por um psicopata?

O fio desenvolvido a partir da história de Eri parece só servir aos papéis de sua irmã, Mari, que perambula pela noite sem querer voltar para casa, e de Takahashi, que apresenta os demais a Mari. A partir dessas relações se pode vislumbrar um retrato da noite de Tóquio – que poderia ser, diga-se, o de qualquer outra metrópole, mas que sai enriquecido. Existe certa beleza em observar os entrechoques da cultura contemporânea com as tradições nipônicas.

O escritor japonês Haruki Murakami

O escritor japonês Haruki Murakami

A música, presente em quase todas as obras de Murakami, é personagem adicional. Referências ao jazz e ao blues podem até soar anacrônicas, mas sugerem um contato com atmosferas de saudosismo e suspense, casando com o ritmo do passeio noturno. O problema desse formato de narrativa fragmentada e de construção de cenas é que elas atraem um leitor muito específico, quem está acostumado ao zapping ou à busca de vídeos no Youtube. Parece que as cenas não se fixam na memória e a narrativa carece de clímax.

Murakami, nesta obra, não estava disposto nem a caracterizações detalhadas de personagens e muito menos a grandes momentos. Sua intenção era, provavelmente, fazer um passeio por Tóquio durante uma noite, acompanhado por um punhado de gente sem rumo. No momento em que começamos a entendê-los e a identificar um conflito narrativo, acaba o filme. Ou melhor, o livro.

50 anos

por Rafael Duarte

Nos versos do samba “50 anos”, Aldir Blanc e Cristóvão Bastos são taxativos: “perdoo a todos, não peço desculpas: foi isso o que eu quis viver”. Embora tenha ganhado a voz de Paulinho da Viola no disco comemorativo pelas bodas de sangue de Blanc, a música não entrou no repertório do show em que o pupilo da Portela comemora, agora, cinco décadas de carreira. Mas os versos estão lá, na penumbra, entre um acorde e outro, macios como a voz do menestrel.

Paulinho viveu – e continua vivendo – o que realmente quis. Distante de polêmicas, sem saudosismos nem pedidos de desculpas. No documentário dirigido pelo jornalista Zuenir Ventura ele mesmo já se apropriara dos versos do samba de outra referência para se reafirmar. “Meu tempo é hoje”, de Wilson Batista, é mais uma das extensões do Paulinho da Viola, do Paulinho do bairro de Botafogo, do Paulinho da Portela.

Ouvir o Da Viola é como caminhar todos os dias pela manhã na praia da Redinha. Apesar de saber que aquele azul de que trata seu samba mais conhecido não era do céu nem era do mar, a elegância dos poucos passistas na areia intercalando bom dias e votos de felicidade aproximam o Paulinho da praia onde sopram os bons ventos das redes de pescar.Paulinho 50 Anos

No show em que comemora 50 anos de estrada, o Paulinho tímido e gigante se revela e se revê. Na companhia quase solitária do violão, começa voltando aos 14 anos de idade para seguir falando da vida. E aí, como num passe de mágica, o público redescobre que o Brasil já viveu e sofreu um dia só por amor. Enquanto os sambas saem feito água de coco do palco, ora do violão ora do cavaquinho, o preconceito, a intolerância e o ódio tão presentes no cotidiano de agora se escondem. É quando Paulinho nos atualiza ensinando que há certos tipos de dor que, de fato, não tem razão.

O lirismo de Paulinho da Viola é inspirador. O repertório dos 50 anos passeia por várias fases da carreira do compositor. Tal qual uma delicada caixinha de música, dali surgem histórias escolhidas a dedo, fundamentais para compreender a formação de quem, para muitos, é o sucessor do baluarte Paulo da Portela, patrono da Velha Guarda.

Apesar do samba que corre nas veias, Paulinho também reverencia o choro. Está ali a origem de tudo. Das reuniões em casa com músicos refinados, da parceria do pai César Farias com Jacob do Bandolim por 30 anos. Ponto para a direção do espetáculo. É hora de assistir o passado. Sentado no banquinho, de olho na tabela entre o piano e o clarinete, Paulinho contempla o choro “Inesquecível”, composto em 1964. É o momento mais intimista do show, o encontro entre Da Viola e o moleque Paulinho.

A história da parceria com Hermínio Belo de Carvalho em “Sei lá, Mangueira”, que termina no clássico “Foi um rio que passou em minha vida”, é um desses registros para quem ouviu não esquecer. Outro momento mágico é quando revela o pedido de Rubens Santos, um dos parceiros de Lupicínio Rodrigues, que reclamara antes de um show a forma como uma de suas canções estava sendo tocada e gravada, diferente da versão original. E desde então “Nervos de aço” nunca mais foi a mesma na trajetória do sambista.

Além de Lupicínio e Hermínio, Paulinho estende o tapete vermelho para Walter Alfaiate, Noca da Portela, o conjunto Rosas de Ouro e a turma do Zicartola, onde tudo começou profissionalmente. E dá aos músicos anônimos de Botafogo, bairro onde nasceu, a mesma importância dos grandes mestres consagrados.

Nessa briga eterna de cada dia onde, invariavelmente, o passado é condenado a ser melhor e mais importante que o presente, viver no tempo de Paulinho da Viola é dispensar o tempo. Ouvi-lo é como dormir e acordar em paz ainda que com a velha dúvida de sempre: por onde andou meu coração?

*Rafael Duarte é jornalista

O monstro de 1 bilhão de dólares

Falar de Tubarão em 2015 é difícil. Já vimos Parque dos Dinossauros, Avatar, O Senhor dos Aneis e uma infinidade de outros expoentes dos efeitos especiais. Assistir a um suspense situado numa minúscula cidade costeira em que um punhado de gente se apavora diante de um tubarão mecânico parece um pouco… ultrapassado. Mas acabei vendo Tubarão na tela grande semana passada e o filme me arrebatou. Já sabia de algumas coisas sobre os bastidores dele, como o fato de que Spielberg teve ataques de pânico por medo de não conseguir terminá-lo, ou a circunstância de que o roteiro era construído a cada noite, já nas filmagens. Mas faltava mais. Faltava sentir o efeito que essa produção de 1975 gerou em multidões, já que o filme é, até hoje, a sétima maior bilheteria de todos os tempos.

Cena de TubarãoPrimeiro detalhe louvável é que muitos dos que atuam em Tubarão são amadores. Isso ajuda bastante na identificação do público com o filme, apesar das caras conhecidas de Richard Dreyfuss e Robert Shaw. Steven Spielberg queria essa impressão de gente “anônima” pra fazer as pessoas acreditarem que aquele terror poderia acontecer comigo ou com você. É interessante também que não há aquele excesso de gente bonita como costumamos ver nos filmes de praia atuais. O resultado é que as personagens são factíveis, palpáveis, e é possível conectar com cada uma delas. Imagine você se a Elizabeth Taylor fosse escolhida para ser a mulher do delegado. Pois é.

Existe, além disso, um cuidado especial com planos-sequência, cortes e tomadas. Hitchcock usou um truque simples para emendar pedaços de rolo e dirigir Festim Diabólico como o primeiro filme em plano-sequência, fazendo as junções usando os momentos de foco nas cores escuras do baú ou dos ternos dos personagens. Spielberg se aproveitou das transições. Na cena da praia, quando os cortes são pautados pela passagem dos banhistas, ganha-se em realismo – quem nunca foi interrompido numa observação por uma pessoa que passa na frente? – e em angústia, já que a alternância do rosto do delegado com a visão do mar dá a impressão de que o tubarão pode aparecer a qualquer hora.
Jaws
Há ainda o plano da balsa, sem cortes, quando o prefeito pressiona o delegado para que não feche as praias. O fato de que em nenhum momento se mostra de frente a “autópsia” do tubarão tigre, por exemplo. Ou o enquadramento de cima do mastro do barco, que faz o espectador se voltar para o microcosmo criado ali, independentemente do que há no mar. Tubarão já vale só  pela observação dessa série de tomadas e enquadramentos que, no conjunto, tornam um filme bonito sem que saibamos definir a razão.

Mas sua principal qualidade, a meu ver, é a demonstração de que o tempo da narrativa é essencial para fazer um bom suspense, a despeito dos efeitos especiais. O filme anunciou o que seria a era dos blockbusters, ao custar 10 milhões de dólares e render mais de 1 bilhão, em valores atualizados. George Lucas ficou preso dentro do tubarão mecânico enquanto ele era construído, porque aquela boca enorme travou e não abria mais. Apesar do investimento e dos esforços aplicados pra fazer uma história minimamente realista, é no que se espera e no que não vê que está a graça. A brincadeira das crianças no barquinho atracado junto ao píer, a longa conversa entre o oceanógrafo e o pescador no barco, o mergulho exploratório do personagem de Dreyfuss. Poucas vezes vemos o tubarão, mas o medo incomoda, enerva. E, convenhamos, quem de nós não tem até hoje medo de ataque de um bicho daqueles ao nadar no mar? Sem nunca ter nem visto um.